Parte 6, Matre consilium, 16 11 2014
Um vestido com estampas
de flores, predominantemente em tons pastéis e rosados. Ao ombro,
caída pela alça larga, uma bojuda bolsa feminina que saltitava
conforme Nemo se deslocava em direção ao restaurante, com passos
largos e apressados. Olhou no relógio: estava atrasadi...não,
atrasada. Nemo estava atrasada. Cinco minutos. Era 13:05, ou 13:06.
Então talvez estivesse atrasada 6 minutos? Não importavam as
frações, o atraso permanecia, fosse em cinco, seis ou mais minutos.
É verdade que uma soma tão pequena de cinco minutos para mais ou
para menos raramente constituía atraso nos olhos da maioria das
pessoas que poderíamos chamar de 'comum'. No geral, tais liberdades
tomadas com os horários eram vistas como modicidade de boa conduta e
educação. Mas esse não era o caso, com certeza. Esta pessoa (que
com certeza já estava no restaurante há pelo menos meia hora,
esperando, calculando e julgando friamente) era – e sempre fora, na
verdade – uma coisa de caráter duro, uma chapa de ferro nas
costas. Inflexível no trabalho tanto quanto em casa, demandava com
um olhar todo o respeito que podia ser merecido. Seus olhos eram
punhos feitos para governar sem palavras. Realmente, essa pessoa
podia ser chamada de muita coisa – e já o fora ao longo de sua
vida, desde nomes respeitosos até as mais terríveis injúrias –
mas de forma alguma poderia ser chamada de 'comum'. Às vezes, apesar
de raro, até podia ser chamada de...
'Mãe', Nemo sorriu de
forma calculadamente respeitosa. Dosou cada canto do sorriso para que
tivesse algumas porções de ingenuidade, um tantinho de doçura
pueril e um montão de feminilidade. Era como mandava o protocolo da
situação. Nemo esperava com todas as forças que a implacável
mulher que sentava rígida na cadeira aprovasse sua conduta. Que
aquela sua faixada fosse suficientemente sincera (apesar de falsa)
para ganhar o consentimento dela. Olhando para o pulso, para o
relógio de marca que rebrilhava ofuscante mesmo nas poucas luzes do
restaurante, tudo que ela pôde dizer foi, 'Está atrasada'.
Sim, Nemo sabia.
Exatamente como fora calculado. Esperava que o erro pelo atraso
desviasse a atenção da mãe, mesmo que por alguns momentos, para
que não focasse em outros aspectos, em outras críticas, em outras
acusações. Em silêncio, muda, Nemo lá permaneceu, de pé. A
mulher de terno social ainda olhava para o pulso, para o restaurante,
para a mesa – tudo que não fosse aquela rapariga ali, estranha,
que laços sociais e sanguíneos obrigavam-na a tratar com
parcimonioso decoro. Virou os olhos para a jovem, subindo dos pés à
cabeça, e tudo que pôde dizer foi, 'Ainda com o cabelo sujo?'.
Nemo fringiu os dente.
Nem quando se perdia nas trilhas no meio do mato, nem quando quebrava
os dedos socando as caras de pessoas, Nemo chegava a sentir-se tão
desolada quanto quando recebia críticas de sua mãe. Ela, mais que
qualquer outra pessoa, sabia das palavras certas para fazer seu
estômago descer dois palmos até a base da coluna, tremendo, tonto.
Nemo sentiu um impulso terrível de agarrar a própria cintura, de
esticar o vestido de flores que separara exatamente para esta
ocasião, de alisar os próprios cabelos que com tanto trabalho havia
pintado e cuidado pela manhã. Mas conteve-se e permaneceu ali, de
pé, com aquele sorriso estúpido no rosto. Como uma boneca muda,
tentando perfeitamente parecer de verdade.
Após muitos segundos
extenuantes de silêncio sob o olhar acusador da mulher de aço, Nemo
foi convidada para se sentar. Ou melhor, ordenada: 'Sente-se', disse
a mulher, 'Já pedi nossa comida' – “e você não vai comer de
pé feito um animal, não é?” - foi
o que Nemo imaginou que sua mãe estava pensando. Sem esperar por
outra ordem, a jovem se sentou, com cuidado e delicadeza, feito uma
flor; como assim era esperado que fizesse.
A
comida não tardou a chegar. Veio expedita, em pratos consecutivos –
primeiro uma entrada com salada e pães, depois um primeiro prato de
sopa que antecederia um principal de peixe com legumes. Durante todo
o expediente, a mulher de aço trocava alguns comentários ácidos
com os garçons, com termos estranhos e específicos, críticas
pontuais sobre procedimentos quaisqueres. Outro momento, ela mexia em
seu celular de última geração, conversando com investidores,
colegas de trabalho, delegando ordens e exigindo respostas. Às vezes
até mesmo, apesar de raro, comia alguma coisa de seu prato antes que
ordenasse ao garçom que o retirasse. Nunca, entretanto, olhava para
a jovem em frente que, por coerção social, deveria acusar pelo
título honorífico de 'filha'.
Conforme
a prosseguia procissão, Nemo ficava cada vez mais inquieta, sua
garganta coçando, seus dedos fechando forte nos talheres caríssimos
da mesa. Precisava falar alguma coisa. Aquela distância, aquele
abismo de galáxias que separava as duas, esfarelava suas entranhas.
Tinha que falar, dizer qualquer algo, qualquer coisa...mas o quê?
Nada serviria, nada seria bom, nada seria útil. O que poderia dizer
que talvez, nem que fosse um pouco, nem que fosse um ínfimo, pudesse
trazer alguma resposta naquela mulher – tão próxima, tão
distante – que não fosse a de despeito, que não fosse a de
escárnio? O tempo ia passando, o almoço ia terminando, e a razão
fugia de Nemo. Cada tique e cada taque do relógio era uma alfinetada
em sua mente, empurrando-a para agir, puxando, levando...
'Consegui
um espaço na galeria da faculdade', disse, finalmente, quando a
sobremesa já estava a caminho. A mãe, que encontrava-se absorta com
alguma coisa que via em seu celular, por um segundo desviou os olhos
em direção à filha. Seria isso um sinal de aprovação? O coração
de Nemo saltitou. Aceitaria qualquer brecha possível. Empertigou-se
na cadeira e voltou a falar, 'Sim, os professores gostaram muito das
amostras que eu mandei. Um inclusive disse que fazia anos que não
via um trabalho tão promissor'. A mãe guardou o celular e, com
bastante atenção, observou a filha. Nemo sentiu um sorriso genuíno
brotando do fundo de seu coração. Sua boca abriu mais, começou a
gesticular alegremente e continuou a fala, 'Eu tentei uma abordagem
nova, sabe? Algo que sempre costumei fazer na escola, não sei se
você se lembra, misturando cores com impressões e, bem, posso dizer
que todos ficaram bastante interessados. A exposição será na
metade de dezembro, antecedendo a exposição de natal. Eu trouxe até
alguns exemplares do que eu fiz', e Nemo alcançou na bolsa alguns
papéis com seus desenhos e, sorridente cada vez mais, deitou-os
sobre a mesa. Mas a mulher de aço nem mexeu os olhos,
continuando-os a fixar sobre Nemo. Olhava-a através dos cabelos
coloridos de azul e vinho - e duas mechinhas loiras na frente dos
olhos, da mesma cor que a mãe pintava o cabelo da filha quando
criança – como quem olhava para uma mancha de queimadura.
'[...]',
a mãe chamou Nemo pelo nome, 'Quando você vai parar com essa
palhaçada?'. Tudo, completamente tudo – os sorrisos, os gestos, a
postura genuína e a leveza do ser – quebrou. Como que por magia,
Nemo viu-se agarrada pela alma quando ouviu […] e, vazia,
permaneceu atônita diante do julgo da mulher de aço. 'Você tinha
tudo', continuou, 'Nome, família, amigos – amigos
decentes – casa, emprego. Você
era a melhor – e não digo isso por ser minha...', a mulher parou
e, antes que pudesse falar a palavra impronunciável, se conteve,
'...por ser uma pessoa próxima. Digo isso porque é verdade. E agora
vem com essas...essas...', dava para ver que a mulher se esforçava
para não xingar, para não dizer uma palavra imprópria,
'essas...inutilidades'. Com as mãos, a mulher empurrou os desenhos,
amassando-os. Nemo, muito discreta e insignificantemente, guardou
sentida os desenhos na bolsa. 'Você já está velha demais para
isso! Quando é que você vai parar com toda essa estupidez de crise
adolescente? Quando é que vai ter vergonha na cara e voltar
para...', Nemo sabia aonde a conversa estava caminhando e, num
rompante desesperado, interrompeu a mãe.
'Não!'.
Sua voz soou alto no restaurante, trazendo olhares críticos sobre as
duas. A mãe, consternada por ter sido tão grosseiramente
interrompida, tentou continuar, '[…]', novamente Nemo sentiu um
tapa no rosto quando ouviu seu nome,
'Não me interrompa, menina! Diga quando é que você vai parar com
isso e vai voltar para...', e, novamente, Nemo cortou a mãe. 'Não!',
e a jovem ergueu o rosto, suplicante, 'Não...por favor...'. As duas
ficaram em silêncio. A sobremesa chegou, mas a mulher de aço mandou
voltar a dela, 'Não estou mais com apetite', disse ao garçom,
'Termine a sua para que possamos terminar com esta piada de hoje'.
Nemo
deitou os talhares sobre a mesa e levantou-se. Ao lado da mãe, de
pé, segurou nas mãos dela e, com genuína delicadeza, curvou-se
sobre ela e beijou o topo de seus cabelos. 'Te amo', disse, antes de
subir o rosto, num sussurro. Então, sem olhar para trás, sem
titubear, sem errar a cadeia de passos, saiu.
Na
rua, a meia quadra de distância, Nemo sentiu-se
estrangulada...estranguladi pelo vestido. Parou. Respirou fundo.
Fechou os olhos. Tão sim, foi tirando o vestido, primeiro devagar,
mas logo tomando proporções rápidas e frenéticas. Debaixo dele,
havia uma camisa branca e um short. Na bolsa, tirou uma calça jeans
e um casaco. Vestiu-os, rapidamente. E então, também rápido,
prendeu os cabelos longos num coque e, debaixo de um boné, os
escondeu. Apesar dos olhares tortos de algumas pessoas na rua, logo
ninguém mais percebia aquele garoto comum, magricela, andando
incógnito pelas ruas.
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