quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Animalia extras - A carne dos cervos e urubus



Animália extras – A carne dos cervos e urubus

A noite estava calma, ainda em engatinhando no começo de suas primeiras horas de escuridão. À soleira da porta, o cervo impaciente arrumava sua galhada perfeita com um pente. Sua atenção é atiçada subitamente com a abertura da porta mas, ao perceber que a figura que saía dela não era quem esperava, voltou a pentear-se entediado. A figura recém-saída, um urubu de penas amuadas , aproximou-se do cervo com passos conscientes e cadenciados, cada um deles despretensiosamente gentis, e repousou silencioso ao lado do cervo. Este, cada vez mais cheio da espera, disse, 'Cadê o corvo? Ele já devia estar pronto! Sabe que não podemos demorar muito!'.

A ave de penas longas levantou o olhar para poder encontrar os olhos do cervo. Tinha um sorriso de uma boca fina, longa – serena e cativante, 'Ele já vai descer, não se preocupe'. Fez uma pausa, observando a postura inquieta do cervo de galhadas longas, e indagou, 'Mas não acha muito imprudente ir para o Lupercal? Vocês sabem muito bem dos perigos que espreitam aquelas ruas'. O cervo pareceu igualmente incomodado quanto incrédulo do conteúdo da pergunta. Num muxoxo displicente, deu réplica, 'Bah, e do que eu teria medo? De gatos e cães de rua? Faça-me o favor, sou um cervo de nome e respeito. Se uma cadela vier rebolando até mim ou um gato vier roçar em minhas pernas, despacharei ambos com apenas uma ação de meus chifres'.

O urubu alargou o sorriso – suas penas escuras e longas se perdiam na noite. Um colar radiante enfeitava seu pescoço num círculo prismático, como se o tronco do pescoço fosse o centro de uma roda raiada de cores. 'E você acha mesmo que a nobreza dos arranha-céus valerá alguma coisa entre as ruas e os becos?'. O cervo abriu a boca para responder mas não saiu som. Apenas deu de ombros e olhou para o relógio, vendo o tempo escorrer. Começavam a passar pela rua outros animais, muitos em grupo, de passos rápidos e furtivos. Pareciam extremamente agitados, receosos e excitados – tudo ao mesmo tempo. Olhavam por sobre os ombros, apontavam para cantos e davam risadinhas agudas. Estavam caçando e sendo caçados, predando e sendo presas. Um rato de cauda longa e orelhas felpudas virou-se por um momento na direção da ave e, assustado, correu para longe.

'Aquele dali tinha um rabo e tanto', falou o urubu, os olhos brilhando faíscas doces, 'Era espiralado, todo enfeitado de prenda, tão fofo. Parecia o traço das nebulosas e das estrelas – com certeza, uma das muitas razões para sorrirmos nessa noite fria, não?' . O cervo, ouvindo ainda com os olhos centrados no relógio ao pulso, deu uma risada de desdém e pontuou com veneno, 'Nunca entendi o por quê da fixação dos urubus em enfeitar a carne'. O urubu indaga, 'Como assim?', ainda tendo no rosto aquele sorriso calmo. O corvo, levantando a cabeça para fitar profundamente os olhos da ave, diz:

'Todos os urubus não conseguem escapar dessa fixação pelo corpo, pela carniça, por uma idealização dessa substância. É algo que beira o doentio, sabe?', e apontou com as mãos para duas ratinhas que passavam há poucos metros dos dois, 'Observe aquelas duas, sim? O que vê? Uma ratinha pequena, de formas delicadas, pernas longas, cintura fina, ombros para baixo, pezinhos de bijuteria? E outra de corpo avolumado, pernas fortes, peitos grandes e muita bunda? São só alocações de vísceras e carne que você é forçado a acreditar ter alguma beleza de qualquer coisa valiosa. Hah!', ele tomou um momento para pegar ar e empertigar-se a postura. 'Por baixo de tudo são só tecidos, músculos, tendões, ossos, gordura, sangue, tripa e dejetos que nos compõe. Todos somos sacos de carne apenas, os quais gostamos de fingir serem cheios de beleza, de serem algo mais que apenas um cadáver apodrecendo lentamente'.

O cervo aproximou-se do urubu, como que buscasse esmagar aquela ave feia, estúpida e nojenta com suas palavras, 'No final, tudo que importa é quando você vai dar o coito em alguém. Todo o resto, toda essa pintura hipócrita e vazia da carne com ideais românticos ou mágicos, não passa de um teatrinho para tentar escapar do cru de sua própria natureza'. Olhando o urubu por cima, o cervo estava quase cuspindo nele, 'Pare portanto com toda essa babaquice de estrelas e nebulosas, certo?'.

Mas a ave apenas alargou o sorriso, parecendo totalmente alheia aos ataques do cervo. Esperou um momento em silêncio e disse, 'Não posso falar por todos os urubus, até porque generalizar é ser de uma extrema...', e o corvo pausou, fitando profundamente os olhos do cervo, e completou, 'infantilidade'. O cervo repuxou o canto do lábio, descontente, e o urubu seguiu falando, 'Mas eu posso falar de mim. E sim, devo dizer amar a carne, amar o corpo. Como não poderia? O corpo é um veículo da mente, da emoção, da personalidade, da expressão e da alma. É verdade que ele é limitante, e é verdade que às vezes brigamos com nossos corpos, que o detestamos, que os queremos mudar, pintar, alterar para que nos sintamos melhor com nós mesmos. Mas no fim, ele é nosso veículo para sermos. É através dele que existimos nesse mundo, e nos conhecemos e interagimos. Através dele que entendemos o calor, lambemos o ar, fitamos as estrelas e capengamos pelas estradas da vida. Perguntou-me o que eu observo quando vejo aquelas duas ratinhas que passaram, sim? Pois, vejo duas amigas andando agitadas, com medo porém entusiasmadas. Estão à procura de diversão. Seus pés caminham rápidos, passos curtos, ecoando alto nos becos. Vejo que uma está um pouco mais apreensiva, com seus ombros virados para baixo. Vejo que a outra a está tentando confortar e proteger. Vejo uma amizade expressada através de abraços e gestos íntimos, cultivados provavelmente ao longo de anos. Vejo dois universos vivos e pulsantes. Vejo dois corpos caminhantes. Não há diferença entre pensamentos e corpos – pensamos a partir daquilo que experienciamos corporeamente. Sem um corpo, não teríamos onde projetar nossa mente. E mais ainda, tudo que existe pode ser sentido através do corpo – mesmo a insubstância do tempo ou a concretude de um buraco negro. Logo, tudo é carne, tudo é corpo'.

O urubu pausou, vendo traços de frustração e vergonha se formando no rosto do cervo. 'Acho que não só os urubus, mas todos os animais presam pelo corpo. Talvez eles não tenham pensado em todos os detalhes que lhe falei, meu caro, mas tenho certeza de que, no fundo de seus corações, eles percebem um pouco dessa verdade. Contudo, pensar no corpo como uma podridão é um tanto doloroso, pois reduz o veículo de sua alma ao podre e, por aproximação, sua alma se torna podre. Se pensa assim, sua vida então parece ser longa, triste, e de uma extrema falta de amor próprio. É uma pena'. Apesar de extremamente encabulado, o cervo manteve sua postura imponente e impassível. O urubu continuou calmo e feliz. Olhando para o céu, disse: 'A lua está linda, não?'. O cervo, percebendo a deixa para fugir do assunto anterior, concordou, 'Sim, está'.



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