Animália
extras – A carne dos cervos e urubus
A noite
estava calma, ainda em engatinhando no começo de suas
primeiras horas de escuridão. À soleira da porta, o
cervo impaciente arrumava sua galhada perfeita com um pente. Sua
atenção é atiçada subitamente com a
abertura da porta mas, ao perceber que a figura que saía dela
não era quem esperava, voltou a pentear-se entediado. A figura
recém-saída, um urubu de penas amuadas , aproximou-se
do cervo com passos conscientes e cadenciados, cada um deles
despretensiosamente gentis, e repousou silencioso ao lado do cervo.
Este, cada vez mais cheio da espera, disse, 'Cadê o corvo? Ele
já devia estar pronto! Sabe que não podemos demorar
muito!'.
A ave de
penas longas levantou o olhar para poder encontrar os olhos do cervo.
Tinha um sorriso de uma boca fina, longa – serena e cativante, 'Ele
já vai descer, não se preocupe'. Fez uma pausa,
observando a postura inquieta do cervo de galhadas longas, e indagou,
'Mas não acha muito imprudente ir para o Lupercal? Vocês
sabem muito bem dos perigos que espreitam aquelas ruas'. O cervo
pareceu igualmente incomodado quanto incrédulo do conteúdo
da pergunta. Num muxoxo displicente, deu réplica, 'Bah, e do
que eu teria medo? De gatos e cães de rua? Faça-me o
favor, sou um cervo de nome e respeito. Se uma cadela vier rebolando
até mim ou um gato vier roçar em minhas pernas,
despacharei ambos com apenas uma ação de meus chifres'.
O urubu
alargou o sorriso – suas penas escuras e longas se perdiam na
noite. Um colar radiante enfeitava seu pescoço num círculo
prismático, como se o tronco do pescoço fosse o centro
de uma roda raiada de cores. 'E você acha mesmo que a nobreza
dos arranha-céus valerá alguma coisa entre as ruas e os
becos?'. O cervo abriu a boca para responder mas não saiu som.
Apenas deu de ombros e olhou para o relógio, vendo o tempo
escorrer. Começavam a passar pela rua outros animais, muitos
em grupo, de passos rápidos e furtivos. Pareciam extremamente
agitados, receosos e excitados – tudo ao mesmo tempo. Olhavam por
sobre os ombros, apontavam para cantos e davam risadinhas agudas.
Estavam caçando e sendo caçados, predando e sendo
presas. Um rato de cauda longa e orelhas felpudas virou-se por um
momento na direção da ave e, assustado, correu para
longe.
'Aquele
dali tinha um rabo e tanto', falou o urubu, os olhos brilhando
faíscas doces, 'Era espiralado, todo enfeitado de prenda, tão
fofo. Parecia o traço das nebulosas e das estrelas – com
certeza, uma das muitas razões para sorrirmos nessa noite
fria, não?' . O cervo, ouvindo ainda com os olhos centrados no
relógio ao pulso, deu uma risada de desdém e pontuou
com veneno, 'Nunca entendi o por quê da fixação
dos urubus em enfeitar a carne'. O urubu indaga, 'Como assim?', ainda
tendo no rosto aquele sorriso calmo. O corvo, levantando a cabeça para
fitar profundamente os olhos da ave, diz:
'Todos os
urubus não conseguem escapar dessa fixação pelo
corpo, pela carniça, por uma idealização dessa
substância. É algo que beira o doentio, sabe?', e
apontou com as mãos para duas ratinhas que passavam há
poucos metros dos dois, 'Observe aquelas duas, sim? O que vê?
Uma ratinha pequena, de formas delicadas, pernas longas, cintura
fina, ombros para baixo, pezinhos de bijuteria? E outra de corpo
avolumado, pernas fortes, peitos grandes e muita bunda? São só
alocações de vísceras e carne que você é
forçado a acreditar ter alguma beleza de qualquer coisa
valiosa. Hah!', ele tomou um momento para pegar ar e empertigar-se a
postura. 'Por baixo de tudo são só tecidos, músculos,
tendões, ossos, gordura, sangue, tripa e dejetos que nos
compõe. Todos somos sacos de carne apenas, os quais gostamos
de fingir serem cheios de beleza, de serem algo mais que apenas um
cadáver apodrecendo lentamente'.
O cervo
aproximou-se do urubu, como que buscasse esmagar aquela ave feia,
estúpida e nojenta com suas palavras, 'No final, tudo que
importa é quando você vai dar o coito em alguém.
Todo o resto, toda essa pintura hipócrita e vazia da carne com
ideais românticos ou mágicos, não passa de um
teatrinho para tentar escapar do cru de sua própria natureza'.
Olhando o urubu por cima, o cervo estava quase cuspindo nele, 'Pare
portanto com toda essa babaquice de estrelas e nebulosas, certo?'.
Mas a ave
apenas alargou o sorriso, parecendo totalmente alheia aos ataques do
cervo. Esperou um momento em silêncio e disse, 'Não
posso falar por todos os urubus, até porque generalizar é ser de
uma extrema...', e o corvo pausou, fitando profundamente os olhos do
cervo, e completou, 'infantilidade'. O cervo repuxou o canto do
lábio, descontente, e o urubu seguiu falando, 'Mas eu posso
falar de mim. E sim, devo dizer amar a carne, amar o corpo. Como não
poderia? O corpo é um veículo da mente, da emoção,
da personalidade, da expressão e da alma. É verdade que
ele é limitante, e é verdade que às vezes
brigamos com nossos corpos, que o detestamos, que os queremos mudar,
pintar, alterar para que nos sintamos melhor com nós mesmos.
Mas no fim, ele é nosso veículo para sermos. É
através dele que existimos nesse mundo, e nos conhecemos e
interagimos. Através dele que entendemos o calor, lambemos o
ar, fitamos as estrelas e capengamos pelas estradas da vida.
Perguntou-me o que eu observo quando vejo aquelas duas ratinhas que
passaram, sim? Pois, vejo duas amigas andando agitadas, com medo
porém entusiasmadas. Estão à procura de
diversão. Seus pés caminham rápidos, passos
curtos, ecoando alto nos becos. Vejo que uma está
um pouco mais apreensiva, com seus ombros virados para baixo. Vejo
que a outra a está tentando confortar e proteger. Vejo uma
amizade expressada através de abraços e gestos íntimos,
cultivados provavelmente ao longo de anos. Vejo dois universos vivos
e pulsantes. Vejo dois corpos caminhantes. Não há
diferença entre pensamentos e corpos – pensamos a partir
daquilo que experienciamos corporeamente. Sem um corpo, não
teríamos onde projetar nossa mente. E mais ainda, tudo que
existe pode ser sentido através do corpo – mesmo a
insubstância do tempo ou a concretude de um buraco negro. Logo,
tudo é carne, tudo é corpo'.
O urubu
pausou, vendo traços de frustração e vergonha se
formando no rosto do cervo. 'Acho que não só os urubus,
mas todos os animais presam pelo corpo. Talvez eles não tenham
pensado em todos os detalhes que lhe falei, meu caro, mas tenho
certeza de que, no fundo de seus corações, eles percebem um
pouco dessa verdade. Contudo, pensar no corpo como uma podridão
é um tanto doloroso, pois reduz o veículo de sua alma
ao podre e, por aproximação, sua alma se torna podre.
Se pensa assim, sua vida então parece ser longa, triste, e de
uma extrema falta de amor próprio. É uma pena'. Apesar
de extremamente encabulado, o cervo manteve sua postura imponente e
impassível. O urubu continuou calmo e feliz. Olhando para o
céu, disse: 'A lua está linda, não?'. O cervo,
percebendo a deixa para fugir do assunto anterior, concordou, 'Sim,
está'.
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