sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Animalia - Num bar no Alto Bairro



A encruzilhada do encontro de ruas era um dos pontos mais agitados do Alto Bairro. Consistia de um cluster de bares variados que nunca falhavam de aglomerar multidões coloridas. Toda noite, quando a luz deixava o dia, era algazarra e festa – não importando em qual feira da semana estivesse. Os seres sempre lá se reuniam, desde cedo, desde o primeiro engatinhar das têmporas noturnas, sempre numa diligência respeitável. E então havia música, e havia bebida, e havia canto e dança, e havia língua entrelaçadas e cabelos coloridos – nas cores todas de um arco-íris nas trevas. Hoje, num dos bares mais ao canto de lá da encruzilhada de ruas, estavam a Andorinha e Sândalo a se beijar; ao lado delas, Alecrim cutucava alguma coisa dento de sua bolsa; próximo, um leão conversava perversidades com a cadela Bahssina; na ponta da mesa, o raposo afinava seu baixo elétrico enquanto a lagartixa Plipka lutava para manter-se acordada após terminada mais uma cerveja.

Depois de satisfeito em cutucar sua mochila, Alecrim virou-se para as duas beijantes ao seu lado. Olhando numa censura irônica para a andorinha Enna, pergunta: 'Querida, você está tentando engolir a cabeça de minha irmã?'. Enna afastou-se um pouco de Sândalo, lentamente afastando a ponta de sua língua da dela, e, com o rosto vermelho pelas mordidas da flor, responde: 'Se ficar reclamando muito, a cabeça de sua irserá a única irei engolir hoje'.

Alecrim deu de ombros e sorriu com um desdém afetadinho, 'Hoje eu passo, não to afim de asas de fêmea em cima de mim hoje'. Enna abriu a boca passada, 'Ora, veja só!', colocando as mãos na cintura. Sândalo, que estava embaixo das pernas da andorinha, virou o pescoço e encarou o irmão, 'Poxa! Nenhuma asa de fêmea? E pétala, serviria?'.

'Não, nem pétala. Hoje não quero aroma feminino nas minhas folhas', respondeu Alecrim, olhando para a cabeça virada de Sândalo. 'Nem da sua irmãzinha?', fala a garota, com voz repleta de dengo e as mãos alisando, de cabeça para baixo, o rosto de Alecrim. Este, abrindo um sorriso, diz, 'Bem, crieo que eu posso abrir uma exceção', em seguida descendo a boca até a de Sândalo e trocando com ela beijos.

Quem não ficou contente foi a andorinha Enna por ter perdido a língua com a qual troçava. Ainda sentada no colo de Sândalo, comprimiu a cintura dela com as coxas e apertou-lhe a barriga com as mãos, 'Hei! Eu cheguei primeiro!'. Sândalo suspirou pesadamente com os afagos mas sem desgrudar a boca da de Alecrim. Ficando cada vez mais transtornada, Enna cruzou os braços abaixo dos seios, fazendo bico com seu bico.

'Ei, gente, sem incestualidades aqui, certo? Será que pelo menos não podem fingir ter um pouco de classe?', verberou o leão do outro canto da mesa, com voz fanfarrona e rosto corado pela bebida. Sândalo fez um intervalo da boca de Alecrim para responder, 'Leandro, se não está gostando, sinta-se livre de ir para outro lugar, mas não venha trazer madragorices para cá'. O leão não gostou da cortada, 'Ninguém está falando da mandrágora aqui, ow sua flor. Só acho que tem muitas outras pessoas que você poderia beijar aqui sem precisar ser seu irmão'.

'Concordo com Leandro', falou Enna, com os dedos pentelhando entre as costelas de Sândalo, 'Por exemplo, você pode beijar a mim. Eu cheguei primeiro'. Sândalo se fingiu de desentendida e, agora com mais vigor, voltou a beijar Alecrim, suas mãos arranhando as costas dele. 'Ah, que coisa horrívell! Bahssina, vamos, você concorda comigo, não?', o leão se vira para a cadela, tentando buscar algum apoio. Esta por sua vez coloca as mãos em seu quadril largo, irritada, 'Deixa os dois fazerem o que quiserem Leandro. A noite da Animália é longe das regras da mandrágora, então nem venha com essas críticas idiotas'.

'Mas isso não está certo!', contesta o leão. 'Ah é? Pela mesma ótica, não está certo quando você e seus amiguinhos ficam brincando de montar nas costas uns dos outros, né?', escrutina a cadela Bahssina. 'Não, espera, isso é completamente diferente!', o leão já começava a gaguejar, apertando os colares de ouro em seu pescoço com insegurança, 'Além do que, que história é essa? Eu deixo ninguém montar em mim...bem...isso não vem ao caso...', percebendo-se perdido, Leandro vira-se para o outro canto da mesa, 'Porra, Rennard, me dê uma força aqui! Você sabe que estou certo!'.

Rennard, que ainda estava bastante absorto em seu baixo elétrico, afinando e cuidando das cordas, se viu puxado para o meio da discussão. Plipka, a lagartixa, deitava serenamente em seu ombro, mais para lá do que para cá. Sorrindo de maneira esquiva, ele responde ao leão, 'Por mais que possa doer aos seus olhos, amigo, aqui não é o lugar de julgamentos. Estamos no Alto Bairro, bem longe das ruas centrais e bem longe das normas da mandrágora. Aqui, todas as cores se misturam no escuro. Sugiro que aceites e caias de cabeça nesse turvilhão, amigo'.

O leão abriu um sorriso constrangido e Sândalo, apontando para a cara dee, fala em voz alta, 'Ah, toma Leandro! Se temos a bênção do raposo, então temos a benção dos deuses', e, dirigindo-se para Rennard, grita bem jocosa, 'Agora vem cá lindo para eu te dar um beijo e apertar esse seu rabo'. O raposo ri, deitando o baixo elétrico sobre a mesa, 'Olha, se ficar me chamando assim, talvez eu até vá'. Aumentando mais a voz, Sândalo continua, 'Então vem, gostoso, para eu dar um trato em você. E tenho certeza que meu irmão também não vai recusar esse seu rabão!'. Alecrim, olhando sedutoramente para Rennard, balança afirmativamente, 'Minha irmãzinha está certa; afinal, hoje eu realmente estava afim de umas costas masculinas onde subir'. O raposo era só sorrisos, 'Bem, posso pensar no caso, se vocês prometerem ser gentis comigo'.

'Hipócrita', disse uma voz gélida e arranhada no canto mais afastado da mesa, tão afastado que os outros até quase tinham esquecido dele. Mesmo soando baixo, mesmo soando escondida, a voz se fez mais alta do que todas as risadas e brincadeiras triviais. Todos, até o leão e sua coroa, afundaram um pouco mais em seus assentos, paralisados e ansiosos. Envolto em fumaça, batendo as cinzas para fora do cigarro, os olhos do unicórnio faiscavam na escuridão e seu chifre – pontudo, longo e infinito – estava virado para o raposo, ameaçador...

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