A
encruzilhada do encontro de ruas era um dos pontos mais agitados do
Alto Bairro. Consistia de um cluster de bares variados que nunca
falhavam de aglomerar multidões coloridas. Toda noite, quando a luz
deixava o dia, era algazarra e festa – não importando em qual
feira da semana estivesse. Os seres sempre lá se reuniam, desde
cedo, desde o primeiro engatinhar das têmporas noturnas, sempre numa
diligência respeitável. E então havia música, e havia bebida, e
havia canto e dança, e havia língua entrelaçadas e cabelos
coloridos – nas cores todas de um arco-íris nas trevas. Hoje, num
dos bares mais ao canto de lá da encruzilhada de ruas, estavam a
Andorinha e Sândalo a se beijar; ao lado delas, Alecrim cutucava
alguma coisa dento de sua bolsa; próximo, um leão conversava
perversidades com a cadela Bahssina; na ponta da mesa, o raposo
afinava seu baixo elétrico enquanto a lagartixa Plipka lutava para
manter-se acordada após terminada mais uma cerveja.
Depois de
satisfeito em cutucar sua mochila, Alecrim virou-se para as duas
beijantes ao seu lado. Olhando numa censura irônica para a andorinha
Enna, pergunta: 'Querida, você está tentando engolir a cabeça de
minha irmã?'. Enna afastou-se um pouco de Sândalo, lentamente
afastando a ponta de sua língua da dela, e, com o rosto vermelho
pelas mordidas da flor, responde: 'Se ficar reclamando muito, a
cabeça de sua irserá a única irei engolir hoje'.
Alecrim
deu de ombros e sorriu com um desdém afetadinho, 'Hoje eu passo, não
to afim de asas de fêmea em cima de mim hoje'. Enna abriu a boca
passada, 'Ora, veja só!', colocando as mãos na cintura. Sândalo,
que estava embaixo das pernas da andorinha, virou o pescoço e
encarou o irmão, 'Poxa! Nenhuma asa de fêmea? E pétala,
serviria?'.
'Não,
nem pétala. Hoje não quero aroma feminino nas minhas folhas',
respondeu Alecrim, olhando para a cabeça virada de Sândalo. 'Nem da
sua irmãzinha?', fala a garota, com voz repleta de dengo e as mãos
alisando, de cabeça para baixo, o rosto de Alecrim. Este, abrindo um
sorriso, diz, 'Bem, crieo que eu posso abrir uma exceção', em
seguida descendo a boca até a de Sândalo e trocando com ela beijos.
Quem não
ficou contente foi a andorinha Enna por ter perdido a língua com a
qual troçava. Ainda sentada no colo de Sândalo, comprimiu a cintura
dela com as coxas e apertou-lhe a barriga com as mãos, 'Hei! Eu
cheguei primeiro!'. Sândalo suspirou pesadamente com os afagos mas
sem desgrudar a boca da de Alecrim. Ficando cada vez mais
transtornada, Enna cruzou os braços abaixo dos seios, fazendo bico
com seu bico.
'Ei,
gente, sem incestualidades aqui, certo? Será que pelo menos não
podem fingir ter um pouco de classe?', verberou o leão do outro
canto da mesa, com voz fanfarrona e rosto corado pela bebida. Sândalo
fez um intervalo da boca de Alecrim para responder, 'Leandro, se não
está gostando, sinta-se livre de ir para outro lugar, mas não venha
trazer madragorices para cá'. O leão não gostou da cortada,
'Ninguém está falando da mandrágora aqui, ow sua flor. Só acho
que tem muitas outras pessoas que você poderia beijar aqui sem
precisar ser seu irmão'.
'Concordo
com Leandro', falou Enna, com os dedos pentelhando entre as costelas
de Sândalo, 'Por exemplo, você pode beijar a mim. Eu cheguei
primeiro'. Sândalo se fingiu de desentendida e, agora com mais
vigor, voltou a beijar Alecrim, suas mãos arranhando as costas dele.
'Ah, que coisa horrívell! Bahssina, vamos, você concorda comigo,
não?', o leão se vira para a cadela, tentando buscar algum apoio.
Esta por sua vez coloca as mãos em seu quadril largo, irritada,
'Deixa os dois fazerem o que quiserem Leandro. A noite da Animália é
longe das regras da mandrágora, então nem venha com essas críticas
idiotas'.
'Mas isso
não está certo!', contesta o leão. 'Ah é? Pela mesma ótica, não
está certo quando você e seus amiguinhos ficam brincando de montar
nas costas uns dos outros, né?', escrutina a cadela Bahssina. 'Não,
espera, isso é completamente diferente!', o leão já começava a
gaguejar, apertando os colares de ouro em seu pescoço com
insegurança, 'Além do que, que história é essa? Eu deixo ninguém
montar em mim...bem...isso não vem ao caso...', percebendo-se
perdido, Leandro vira-se para o outro canto da mesa, 'Porra, Rennard,
me dê uma força aqui! Você sabe que estou certo!'.
Rennard,
que ainda estava bastante absorto em seu baixo elétrico, afinando e
cuidando das cordas, se viu puxado para o meio da discussão. Plipka,
a lagartixa, deitava serenamente em seu ombro, mais para lá do que
para cá. Sorrindo de maneira esquiva, ele responde ao leão, 'Por
mais que possa doer aos seus olhos, amigo, aqui não é o lugar de
julgamentos. Estamos no Alto Bairro, bem longe das ruas centrais e
bem longe das normas da mandrágora. Aqui, todas as cores se misturam
no escuro. Sugiro que aceites e caias de cabeça nesse turvilhão,
amigo'.
O leão
abriu um sorriso constrangido e Sândalo, apontando para a cara dee,
fala em voz alta, 'Ah, toma Leandro! Se temos a bênção do raposo,
então temos a benção dos deuses', e, dirigindo-se para Rennard,
grita bem jocosa, 'Agora vem cá lindo para eu te dar um beijo e
apertar esse seu rabo'. O raposo ri, deitando o baixo elétrico sobre
a mesa, 'Olha, se ficar me chamando assim, talvez eu até vá'.
Aumentando mais a voz, Sândalo continua, 'Então vem, gostoso, para
eu dar um trato em você. E tenho certeza que meu irmão também não
vai recusar esse seu rabão!'. Alecrim, olhando sedutoramente para
Rennard, balança afirmativamente, 'Minha irmãzinha está certa;
afinal, hoje eu realmente estava afim de umas costas masculinas onde
subir'. O raposo era só sorrisos, 'Bem, posso pensar no caso, se
vocês prometerem ser gentis comigo'.
'Hipócrita',
disse uma voz gélida e arranhada no canto mais afastado da mesa, tão
afastado que os outros até quase tinham esquecido dele. Mesmo soando
baixo, mesmo soando escondida, a voz se fez mais alta do que todas as
risadas e brincadeiras triviais. Todos, até o leão e sua coroa,
afundaram um pouco mais em seus assentos, paralisados e ansiosos.
Envolto em fumaça, batendo as cinzas para fora do cigarro, os olhos
do unicórnio faiscavam na escuridão e seu chifre – pontudo, longo
e infinito – estava virado para o raposo, ameaçador...
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