quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Animalia – Num bar do Alto Bairro (2), O chifre do Unicórnio



Animalia – Num bar do Alto Bairro (2), O chifre do Unicórnio, 19 11 2014

O Unicórnio: quase sempre invisível, quase sempre no limite de dezessete da percepção, ninguém o avista, e quando o avistam, não o vêem. Mas todos o procuram: consicente, incosncientemente, por cima, por baixo, pelos lados, por dentro, por fora. O Unicórnio é o propósito do significado, a agulha encontrada levianamente encravada no olho, a surpresa letal entre os pulmões num exame médico, o gosto inalcançável do desejo e vício final. E quando o Unicórnio fala, todos se calam. Mesmo o Pai dos Leões, em seu trono dourado, abaixa sua coroa. Mesmo os cervos, senhores das florestas de pedra, mesmo as águias em seus arranha-céus pristinos, todos se reduzem na presença do Unicórnio.

O raposo Rennard caducou em falso, engolindo o ar. Já vira o Unicórnio antes, já estivera em sua presença e até trocara palavras com ele. Mas nunca antes sentira o peso de seu olhar antes, ou a agudeza de suas palavras. Sempre haviam sido outros a serem impalados, caindo de joelhos e tremendo diante do Unicornio fumante dos becos. Mas agora, estando ele debaixo daquele escrutínio, daquela frieza sideral, entendia porque todos escondiam as caudas entre as pernas em sua presença. Rennard não encontrou uma expressão para dar em resposta. Com o rosto travado, num silêncio engasgado, olhou à sua volta. Todos os olhos na mesa oscilavam entre ele e o Unicórnio, silentes, apopléticos, num misto de emoções. As flores Sândalo e Alecrim pareciam preocupadas. A pomba Enna parecia perdida. Leandro, o leão, e Bahssina, a cadela, estavam assustados, apesar de com um misto de empolgação, ansiosos em ver como o raposo reagiria. E Plipka, a lagartixa, ainda dormia serena sobre o ombro de Rennard, mas seu rosto parecia contorcer-se em pesadelos.

Rennard, retornando o olhar ao do Unicórnio, percebeu-o ainda crivado sobre si. Tentou acalmar-se, respirou fundo e sorriu. Numa voz forçada leve pela tensão do momento, retorquiu em pergunta, 'Hipócrita? Eu? Por quê?'. O Unicórnio puxou o fumo do cigarro para a boca e pufou-o no ar, 'Pergunta idiota, preciso mesmo explicar?', fez pausa, olhou para o raposo com acidez triplicada, 'Você vive com essa coxa roçando em meio mundo de bichos. Sempre com essa cauda estúpida no meio das pernas dos outros. Mas nunca te vejo, raposo, montar acima das espaldas das costas de alguém, nem dobrar abaixo da linha dos joelhos. Nem com macho, nem com fêmea, nem com mafeme ou o que quer que exista de bicho, você jamais vai além de um abraço íntimo. E eu ainda conto nos dedos as vezes que você trocou língua com alguém. Mesmo assim, você – raposo das sete cordas graves –, você ainda ousa cantar as suas sacanagens, tocar suas putarescas e entoar suas cantigas de transador, mestre das pernas e das coxas e das virilhas, blah!', o Unicórnio pausou um instante, como se juntasse escanecimento na voz e pontuou, uma vez mais, 'Hipócrita'.

O raposo, sem se deixar amedrontar, manteu o sorriso sereno no rosto, 'Ora, está criticando minha arte? Mas toda arte é expressão, um ponto de vista necessário para entender esse nosso estranho mundo. Por acaso o Unicórnio dos becos está tentando me sensurar a arte bem no meio do Alto Bairro? Por acaso...', mas o fumante não permitiu que Rennard continuasse. Seu semblante torceu-se numa careta de incredulidade e raiva e sua voz arranhada foi cuspida com força no ar:

'Você realmente, realmente está tentando falar de filosofices comigo? Comigo?!', pontuou num grito. Nesse momento eis que então vários animais, de outros bares e outras mesas, começaram a prestar atenção no que acontecia. Um silêncio fantasmagórico estranho começava a pousar ali conforme as percepções se dirigiam para o Unicornio dos becos, a fumaça dos vários cigarros fumados por ele pairando sobre si como nuvens de tempestade. 'Não me tome nunca, nunca, como um tolo qualquer amigo ou conhecido seu. Eu não estou dizendo como você pode meter essa sua porra de arte. Por mim, você pode cantar como iria enfiar a cadeira do bar em todos os buracos de Sândalo até estourá-la por dentro, há!', e o Unicórnio parou. Por um momento mínimo, seus olhos deixaram de pressionar o raposo e voltaram-se para a flor e, neste átimo de segundo, os dois seres trocaram uma intimidade de memórias silenciosas e infinitas discussões. Mas rapidamente o fumante deixou o olhar de Sândalo e virou-se novamente pairando sobre o raposo. 'Por mim, foda-se. Eu não poderia me importar menos. Deixe a censura para a mandrágora e a bunda dela. O que estou realmente falando, raposo Rennard, é que você, suas palavras, ações, insinuações e posturas ainda continuam, independente de arte e expressão, hipócritas. Você se porfia todo nessa aura de coito e transa, quando, no fundo, existe para enganar a todos cuja boca tua toquem. Quantas não deve ter você frustrado almas? Quantos não deve ter você esmagado corações? Você...', e o fumante levantou as mãos no ar, fazendo a forma de estrangulação, apontando para o raposo, '...você me dá nojo'. Fez outra pausa, tragando o cigarro, e pontuou: 'Mas que decepção você deve ser para Lorena'.

Ao ouvirem tal nome, os bichos todos começaram a cochichar. O leão Leandro, como que tivesse recebido um choque, não conseguiu segurar a boca e, intrudindo na conversa, perguntou: 'Lorena? Você estaria falando da “ Lorena Vulpes”?'. O Unicórnio incomodou-se com a intrusão. Mesmo assim, despretensiosamente, respondeu, 'Sim, a própria Lorena Vulpes, a Imperadora da Noite, a primeira entre as raposas. Acontece que esse raposo nojento é precisamente parente dela'. O arrulho de cochichos aumentou com essa nova informação, e o raposo sentiu-se mais sufocado pelo peso dos olhares. O Unicórnio pareceu se divertir com o andar da situação, 'Pois é, parece que ter o sangue da grande copulatrix nas artérias ainda não é suficiente para ensinar um raposo torto a amar. Nojento, patético...uma raposa sem amor'.

No seu canto do bar, apesar do sufoco, o raposo ainda matinha o sorriso. Segurando com delicadeza a cabeça da lagartixa Plipka, que ainda estava em seu ombro, deitou-a suavemente sobre a mesa do bar. Então, em voz baixa, mas firme, encarando tenazmente seus olhos cristalinos de sangue do Unicórnio, disse:

'Meu amor é cinza'. Pela primeira vez naquela noite, a feição severa do Unicornio recuou dois passos. Tragou seu cigarro, pensativo e, seguindo, indagou, 'Cinza? Quer dizer fraco?...Doente?', abrindo um sorriso de dentes afiados feito mármore. Mas o raposo não se incomodou. Balançou a cabeça e respondeu, leve:

'Não, apenas cinza. Isso nem é fraco, nem doente. Cinza é a origem de todas as cores, a semente eterna a devenir. E meu amor é cinza assim. É preciso fazer vir nele as cores, sendo pintado por contatos, sorrisos, ideias'. O Unicórnio massageou a testa, enfastiado. 'Então, em resumo, você está dizendo que você não gosta de ter contato físico com alguém'.

O raposo riu, 'Claro que não, Unicórnio'. Ele pausou um momento e alisou os cabelos de Plipka, que dormia serena na mesa, 'Gosto muito do contato, do cheiro, da sensação de pele com pele. Quanto mais próximo alguém se torna de meu coração, mais próximo quero este de minha carne. A distância entre os corpos reflete a distância entre as mentes e, para ser sincero, é muito difícil não ter um contato assim, junto, com quem me é próximo. Torna-se bastante natural para mim ficar entre as pernas e cabelos destes, dando e recebendo mordidas, lambidas e apertões'. O Unicórnio ia ficando visivelmente transtornado, já cansado daquela conversa 'E no final de contas, você fode ou não?'.

O raposo não conteve uma gargalhada, 'Blah, sim!'. O unicórnio não gostou da risada, mas manteve-se frio, observando. Rennard continuou, 'É verdade que a atração sexual me é bastante secundária, mesmo eu tendo um desejo sensual muito presente. E sim, é verdade que eu prefiro mais dos abraços íntimos e mordidas que o roçar de genitais. Contudo, isso não me impede de gostar de roçar de vez em quando, não é mesmo Sândalo', Rennard deu uma risadinha e a flor, em resposta, piscou para ele. 'Mas não sou hipócrita. Entendo que esse meu jeito e que essas minhas ações possam ter incomodado alguns bichos. Caso realmente eu tenha frustrado desejos e corações, tudo que posso pedir é a mais sincera das desculpas. Apenas meu amor é cinza, e mais sensual que sexual. Peço desculpas se só me arroço com meus amigos mais íntimos'.

Silêncio. Todos agora esperavam a resposta do Unicórnio. Este, com aspecto extremamente desinteressado, apagando o cigarro e já com outro na boca, conclui, 'Em resumo, quanto mais você ache alguém interessante, mais levanta seu rabo até que o bicho, já teu amiguinho, te monte nas costas ou te coma de frente'. O Unicórnio deu outra chupada no cigarro, 'Entendo. Bem, então você não deve ser mesmo amigo de Enna, não é mesmo?'.

Nesse momento, toda a discussão quebrou e as palavras do Unicórnio perfuraram o peito da Andorinha. Esta, aturdida, virou os olhos para os do Unicórnio e percebeu que eles fitavam, sangrentos, os dela. 'Pois é', continuou o fumante, 'Ouvi já das inúmeras vezes que você recusou essa andorinha. E não importa quanto ela pie doce, ou abra toda arreganhada essas asas, você sempre diz não. Deve ser realmente chato ter uma pessoa tola dessas nas suas costa, não é? Que não se manca, que não percebe as dicas'. A andorinha Enna começava e tremer – de angústia? Tristeza? Nervoso? Não dava para saber, mas ela tremia. Todos os bichos olhavam perplexos, e o Unicórnio fumava, rindo, 'Mas olhe pelo lado bom, raposo cinzento. Pelo menos você tem em Sândalo uma verdadeira amiga para foder'. Agora, desviando os olhos vermelhos para a direção de Sândolo, o Unicórnio fala, cruel, 'Me diga, flor, você já fez esse raposo gritar seu nome durante o coito?'.

Ouve-se um engasgar sentido. Então Enna se levanta e sai, escondendo o rosto nas penas dos cabelos. O raposo, pasmo, por um momento hesita mas, logo vai atrás da andorinha. O Unicórnio ri, acendendo outro cigarro. 'Você é um monstro', Sândalo comenta, fria, 'Não aceitou que seu chifre não feria o raposo, tinha que virá-lo para outro'. O fumante não respondeu, ainda com o sorriso frio no rosto. A flor, cansada, levantou-se, 'Orgulhe-se: é mais uma noite que você conseguiu desvirtuar toda a atenção para si. Pois bem', e ela tomou em mãos um copo, 'Um brinde ao Unicórnio fumante e a todos os seus prisioneiros', e bateu o fundo do copo na mesa, quase quebrando. Em seguida, deixou o lugar, sendo acompanhada pelo irmão.


Sem mais vítimas divertidas para furar, o Unicórnio afundou em sua cadeira e, virando-se para a multidão de bichos, ordenou, 'Cuidem de seus rabos agora, virem essas fuças para lá', e, depois, concentrou-se em fumar seus cigarros, desaparecendo num denso fog espectral.

Image 1

(Infelizmente, não consegui encontrar uma boa imagem para o unicornio. Ele é de aparência neutra. Mas essa foto mostra um pouco do temperamento do unicornio fumante de Animalia)

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