Animalia
– Num bar do Alto Bairro (2), O chifre do Unicórnio, 19 11 2014
O
Unicórnio: quase sempre invisível, quase sempre no limite de
dezessete da percepção, ninguém o avista, e quando o avistam, não
o vêem. Mas todos o procuram: consicente, incosncientemente, por
cima, por baixo, pelos lados, por dentro, por fora. O Unicórnio é o
propósito do significado, a agulha encontrada levianamente encravada
no olho, a surpresa letal entre os pulmões num exame médico, o
gosto inalcançável do desejo e vício final. E quando o Unicórnio
fala, todos se calam. Mesmo o Pai dos Leões, em seu trono dourado,
abaixa sua coroa. Mesmo os cervos, senhores das florestas de pedra,
mesmo as águias em seus arranha-céus pristinos, todos se reduzem na
presença do Unicórnio.
O raposo
Rennard caducou em falso, engolindo o ar. Já vira o Unicórnio
antes, já estivera em sua presença e até trocara palavras com ele.
Mas nunca antes sentira o peso de seu olhar antes, ou a agudeza de
suas palavras. Sempre haviam sido outros a serem impalados, caindo de
joelhos e tremendo diante do Unicornio fumante dos becos. Mas agora,
estando ele debaixo daquele escrutínio, daquela frieza sideral,
entendia porque todos escondiam as caudas entre as pernas em sua
presença. Rennard não encontrou uma expressão para dar em
resposta. Com o rosto travado, num silêncio engasgado, olhou à sua
volta. Todos os olhos na mesa oscilavam entre ele e o Unicórnio,
silentes, apopléticos, num misto de emoções. As flores Sândalo e
Alecrim pareciam preocupadas. A pomba Enna parecia perdida. Leandro,
o leão, e Bahssina, a cadela, estavam assustados, apesar de com um
misto de empolgação, ansiosos em ver como o raposo reagiria. E
Plipka, a lagartixa, ainda dormia serena sobre o ombro de Rennard,
mas seu rosto parecia contorcer-se em pesadelos.
Rennard,
retornando o olhar ao do Unicórnio, percebeu-o ainda crivado sobre
si. Tentou acalmar-se, respirou fundo e sorriu. Numa voz forçada
leve pela tensão do momento, retorquiu em pergunta, 'Hipócrita? Eu?
Por quê?'. O Unicórnio puxou o fumo do cigarro para a boca e
pufou-o no ar, 'Pergunta idiota, preciso mesmo explicar?', fez pausa,
olhou para o raposo com acidez triplicada, 'Você vive com essa coxa
roçando em meio mundo de bichos. Sempre com essa cauda estúpida no
meio das pernas dos outros. Mas nunca te vejo, raposo, montar acima
das espaldas das costas de alguém, nem dobrar abaixo da linha dos
joelhos. Nem com macho, nem com fêmea, nem com mafeme ou o que quer
que exista de bicho, você jamais vai além de um abraço íntimo. E
eu ainda conto nos dedos as vezes que você trocou língua com
alguém. Mesmo assim, você – raposo das sete cordas graves –,
você ainda ousa cantar as suas sacanagens, tocar suas putarescas e
entoar suas cantigas de transador, mestre das pernas e das coxas e
das virilhas, blah!', o Unicórnio pausou um instante, como se
juntasse escanecimento na voz e pontuou, uma vez mais, 'Hipócrita'.
O raposo,
sem se deixar amedrontar, manteu o sorriso sereno no rosto, 'Ora,
está criticando minha arte? Mas toda arte é expressão, um ponto de
vista necessário para entender esse nosso estranho mundo. Por acaso
o Unicórnio dos becos está tentando me sensurar a arte bem no meio
do Alto Bairro? Por acaso...', mas o fumante não permitiu que
Rennard continuasse. Seu semblante torceu-se numa careta de
incredulidade e raiva e sua voz arranhada foi cuspida com força no
ar:
'Você
realmente, realmente está
tentando falar de filosofices comigo? Comigo?!', pontuou
num grito. Nesse momento eis que então vários animais, de outros
bares e outras mesas, começaram a prestar atenção no que
acontecia. Um silêncio fantasmagórico estranho começava a pousar
ali conforme as percepções se dirigiam para o Unicornio dos becos,
a fumaça dos vários cigarros fumados por ele pairando sobre si como
nuvens de tempestade. 'Não me tome nunca, nunca,
como um tolo qualquer amigo ou conhecido seu. Eu não estou dizendo
como você pode meter essa sua porra de arte. Por mim, você
pode cantar como iria enfiar a cadeira do bar em todos os buracos de
Sândalo até estourá-la por dentro, há!', e o Unicórnio parou.
Por um momento mínimo, seus olhos deixaram de pressionar o raposo e
voltaram-se para a flor e, neste átimo de segundo, os dois seres
trocaram uma intimidade de memórias silenciosas e infinitas
discussões. Mas rapidamente o fumante deixou o olhar de Sândalo e
virou-se novamente pairando sobre o raposo. 'Por mim, foda-se. Eu não
poderia me importar menos. Deixe a censura para a mandrágora e a
bunda dela. O que estou realmente falando, raposo Rennard, é que
você, suas palavras, ações, insinuações e posturas ainda
continuam, independente de arte e expressão, hipócritas. Você se
porfia todo nessa aura de coito e transa, quando, no fundo, existe
para enganar a todos cuja boca tua toquem. Quantas não deve ter você
frustrado almas? Quantos não deve ter você esmagado corações?
Você...', e o fumante levantou as mãos no ar, fazendo a forma de
estrangulação, apontando para o raposo, '...você me dá nojo'. Fez
outra pausa, tragando o cigarro, e pontuou: 'Mas que decepção você
deve ser para Lorena'.
Ao
ouvirem tal nome, os bichos todos começaram a cochichar. O leão
Leandro, como que tivesse recebido um choque, não conseguiu segurar
a boca e, intrudindo na conversa, perguntou: 'Lorena? Você estaria
falando da “ Lorena Vulpes”?'. O Unicórnio incomodou-se com a
intrusão. Mesmo assim, despretensiosamente, respondeu, 'Sim, a
própria Lorena Vulpes, a Imperadora da Noite, a primeira entre as
raposas. Acontece que esse raposo nojento é precisamente parente
dela'. O arrulho de cochichos aumentou com essa nova informação, e
o raposo sentiu-se mais sufocado pelo peso dos olhares. O Unicórnio
pareceu se divertir com o andar da situação, 'Pois é, parece que
ter o sangue da grande copulatrix nas artérias ainda não é
suficiente para ensinar um raposo torto a amar. Nojento,
patético...uma raposa sem amor'.
No seu
canto do bar, apesar do sufoco, o raposo ainda matinha o sorriso.
Segurando com delicadeza a cabeça da lagartixa Plipka, que ainda
estava em seu ombro, deitou-a suavemente sobre a mesa do bar. Então,
em voz baixa, mas firme, encarando tenazmente seus olhos cristalinos
de sangue do Unicórnio, disse:
'Meu amor
é cinza'. Pela primeira vez naquela noite, a feição severa do
Unicornio recuou dois passos. Tragou seu cigarro, pensativo e,
seguindo, indagou, 'Cinza? Quer dizer fraco?...Doente?', abrindo um
sorriso de dentes afiados feito mármore. Mas o raposo não se
incomodou. Balançou a cabeça e respondeu, leve:
'Não,
apenas cinza. Isso nem é fraco, nem doente. Cinza é a origem de
todas as cores, a semente eterna a devenir. E meu amor é cinza
assim. É preciso fazer vir nele as cores, sendo pintado por
contatos, sorrisos, ideias'. O Unicórnio massageou a testa,
enfastiado. 'Então, em resumo, você está dizendo que você não
gosta de ter contato físico com alguém'.
O raposo
riu, 'Claro que não, Unicórnio'. Ele pausou um momento e alisou os
cabelos de Plipka, que dormia serena na mesa, 'Gosto muito do
contato, do cheiro, da sensação de pele com pele. Quanto mais
próximo alguém se torna de meu coração, mais próximo quero este
de minha carne. A distância entre os corpos reflete a distância
entre as mentes e, para ser sincero, é muito difícil não ter um
contato assim, junto, com quem me é próximo. Torna-se bastante
natural para mim ficar entre as pernas e cabelos destes, dando e
recebendo mordidas, lambidas e apertões'. O Unicórnio ia ficando
visivelmente transtornado, já cansado daquela conversa 'E no final
de contas, você fode ou não?'.
O raposo
não conteve uma gargalhada, 'Blah, sim!'. O unicórnio não gostou
da risada, mas manteve-se frio, observando. Rennard continuou, 'É
verdade que a atração sexual me é bastante secundária, mesmo eu
tendo um desejo sensual muito presente. E sim, é verdade que eu
prefiro mais dos abraços íntimos e mordidas que o roçar de
genitais. Contudo, isso não me impede de gostar de roçar de vez em
quando, não é mesmo Sândalo', Rennard deu uma risadinha e a flor,
em resposta, piscou para ele. 'Mas não sou hipócrita. Entendo que
esse meu jeito e que essas minhas ações possam ter incomodado
alguns bichos. Caso realmente eu tenha frustrado desejos e corações,
tudo que posso pedir é a mais sincera das desculpas. Apenas meu amor
é cinza, e mais sensual que sexual. Peço desculpas se só me arroço
com meus amigos mais íntimos'.
Silêncio.
Todos agora esperavam a resposta do Unicórnio. Este, com aspecto
extremamente desinteressado, apagando o cigarro e já com outro na
boca, conclui, 'Em resumo, quanto mais você ache alguém
interessante, mais levanta seu rabo até que o bicho, já teu
amiguinho, te monte nas costas ou te coma de frente'. O Unicórnio
deu outra chupada no cigarro, 'Entendo. Bem, então você não deve
ser mesmo amigo de Enna, não é mesmo?'.
Nesse
momento, toda a discussão quebrou e as palavras do Unicórnio
perfuraram o peito da Andorinha. Esta, aturdida, virou os olhos para
os do Unicórnio e percebeu que eles fitavam, sangrentos, os dela.
'Pois é', continuou o fumante, 'Ouvi já das inúmeras vezes que
você recusou essa andorinha. E não importa quanto ela pie doce, ou
abra toda arreganhada essas asas, você sempre diz não. Deve ser
realmente chato ter uma pessoa tola dessas nas suas costa, não é?
Que não se manca, que não percebe as dicas'. A andorinha Enna
começava e tremer – de angústia? Tristeza? Nervoso? Não dava
para saber, mas ela tremia. Todos os bichos olhavam perplexos, e o
Unicórnio fumava, rindo, 'Mas olhe pelo lado bom, raposo cinzento.
Pelo menos você tem em Sândalo uma verdadeira amiga para foder'.
Agora, desviando os olhos vermelhos para a direção de Sândolo, o
Unicórnio fala, cruel, 'Me diga, flor, você já fez esse raposo
gritar seu nome durante o coito?'.
Ouve-se
um engasgar sentido. Então Enna se levanta e sai, escondendo o rosto
nas penas dos cabelos. O raposo, pasmo, por um momento hesita mas,
logo vai atrás da andorinha. O Unicórnio ri, acendendo outro
cigarro. 'Você é um monstro', Sândalo comenta, fria, 'Não aceitou
que seu chifre não feria o raposo, tinha que virá-lo para outro'. O
fumante não respondeu, ainda com o sorriso frio no rosto. A flor,
cansada, levantou-se, 'Orgulhe-se: é mais uma noite que você
conseguiu desvirtuar toda a atenção para si. Pois bem', e ela tomou
em mãos um copo, 'Um brinde ao Unicórnio fumante e a todos os seus
prisioneiros', e bateu o fundo do copo na mesa, quase quebrando. Em
seguida, deixou o lugar, sendo acompanhada pelo irmão.
Sem mais
vítimas divertidas para furar, o Unicórnio afundou em sua cadeira
e, virando-se para a multidão de bichos, ordenou, 'Cuidem de seus
rabos agora, virem essas fuças para lá', e, depois, concentrou-se
em fumar seus cigarros, desaparecendo num denso fog espectral.
Image 1
(Infelizmente, não consegui encontrar uma boa imagem para o unicornio. Ele é de aparência neutra. Mas essa foto mostra um pouco do temperamento do unicornio fumante de Animalia)

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