Num apartamento de
medidas discretas, uma música soava grave. Ela vinha de um aparelho
de som modesto – um blues antigo, lento e quente. Sentado ao chão,
o raposo de cores escorridas seguia o compasso da música com seu
baixo elétrico apoiado em suas coxas. O braço do instrumento
elevava-se na escuridão e os dedos escorriam pelas cordas grossas.
Atrás, com as costas encostadas nas dele, a andorinha de penas
arqueadas ouvia atentamente, suas emoções ondulando para dentro e
para fora com cada nota tocada.
'Enna', perguntou de
súbito o raposo, sem que seus dedos parassem de tocar, 'Como vai
Alarico?'. A andorinha, ainda de olhos fechados, parcialmente em
transe, piou, 'Como sempre: queria que eu voasse mais baixo e mais
próxima dele'. Deixando a música soar, o raposo demorou um pouco
antes de voltar com a fala, 'Pobre do Alarico, não acho que ele
entenda a tua situação'. A andorinha dançava sentada no mesmo
lugar, esfregando as costas nas do raposo. 'E como poderia ele
entender o sabor do vento? Só acho estranho que, para um gato, ele
seja tão...carente'.
'Acha que ele seria
melhor como um cão?', riu o raposo, 'Talvez esteja sendo muito
normativista, querida'. A andorinha estalou o bico, 'Rennard, não
seja besta!', erguendo os braços na escuridão, tocou suavemente a
mão do raposo que continuava dedilhando o baixo, 'Você sabe muito
bem que os gatos não costumam ser tão grudentos assim'.
O toque da mão de Enna
era leve como bolhas de sabão. Rennard sentiu um salto na base de
sua coluna. 'Há de entender, querida, que mesmo gatos acabam
perdidos em ciúmes quando vêem sua parceira no meio de tantos rabos
e pernas'. A andorinha ouviu, sorriu para si mesma, e deitou a cabeça
nos ombros de Rennard, deixando seus cabelos caírem sobre o peito
dele, 'Está insinuando que ele acha que não possa me satisfazer?'.
'Não só isso, mas
também provavelmente ache que você acabará encontrando “algo
melhor” e então o terminará largando', o raposo fala lentamente,
atentando para a reação da andorinha. Ela, consternada, balançou a
cabeça, deixando sair pela boca, 'Gato idiota...'. O raposo,
beijando a bochecha dela, diz: 'Não fique chateada, amiga. É normal
que ele pense assim'.
Mas a andorinha
tensionava os ombros, 'Eu sei disso, Rennard. Eu sei muito bem
disso'. Ela continuava balançando a cabeça, seus cabelos como
tentáculos sobre o corpo do raposo, 'Só pensei que, depois de tudo,
ele me entenderia melhor. Já conversei com ele, já dancei com ele,
já mostrei para ele como meu coração treme quando está sozinho no
escuro. Pensei que seria o suficiente para fazê-lo entender.
Contudo, percebo claramente isso que você diz: ele tem medo de me
perder através da pernas. Pior ainda, o medo dele é de que algum
macho me “monte de jeito” e me roube dele, pois quando eu faço
amor com Plipka ou as outras meninas, ele adora ouvir. Ha!', a
andorinha pausou um instante, como se acumulasse despeito, e disse
novamente, 'Gato idiota!'.
O raposo deitou o baixo
elétrico ao chão e virou-se para encarar a amiga. Seu pelo
avermelhado com fios cinzas e prateados eram pintados de preto no
escuro. Olhando longamente aos olhos claros da andorinha, com os
dedos percorrendo seus cabelos, sorriu: 'Querida, não deixe queimar
essa angústia em você'. Mas a andorinha não permitiu que o raposo
falasse mais deitando um dedo nos lábios dele, 'Não, Rennard. Não
precisa defendê-lo. Eu sei, eu entendo o lado dele. Sei que é
comum. Sei que é “normal”. Eu só queria que ele entendesse o
meu. Só queria que ele sorrisse com o modo como eu sou. Que deixasse
os temores dele. Que acreditasse...que confiasse em mim', ela
suspirou, 'Queria que ele me entendesse'.
Ainda com o dedo sobre
os lábios do raposo, Enna levantou o rosto e olhou para as feições
de Rennard. 'Eu adoro...', foi o que ela disse com uma voz perdida,
enevoada. Seu dedo desceu dos lábios do raposo, alisando seu queixo,
seu pescoço, 'Eu adoro o corpo'. A andorinha se aproximou, de
joelhos. Pela luz azulada que saía do aparelho de som, sua silhueta
ganhava traços fantasmagóricos, como se sua pele fosse feita de
neon. A andorinha estava quase nua. Vestia somente uma camisola que
terminava ao meio de sua barriga. Suas pernas finas tocavam o azulejo
frio do chão, e sua cintura nua começava agora a roçar na barriga
do raposo.
'Adoro o toque, adoro o
som das peles, adoro os movimentos, e como cada animal, cada um
deles, ama diferente', a andorinha fechou os olhos, como se fosse
tomada por lembranças etéreas, 'Adoro a maneira como as hienas
machos rastejam pelas minhas pernas, e como as fêmeas puxam meus
cabelos para me fazerem gritar. Adoro como os cavalos me completam
por dentro, e como as cavalas são tão acolhedoras. Adoro o latido
dos cães e o miado dos gatos. Adoro as novidades que me trazem os
ratos, e adoro a fala confusa dos pombos. Adoro como os cervos me
fazem parte de seu território. Adoro o pedantismo violento dos
leões. Adoro a travada que os crocodilos me forçam nas pernas.
Adoro as línguas longas das cobras. Tudo, todos, adoro cada um, e
cada um deles ama diferente – nenhum rato guincha da mesma forma
quando eu lhe aperto o rabo'.
Com sua camisa de manga
comprida e sua calça longa, o raposo ouviu serenamente as palavras
lambidas da andorinha, a qual ainda estava de olhos fechados.
Alisando sua cintura nua, diz, 'Compreendo como te sente, querida.
Estar tão próximo do corpo de alguém é como estar próximo da sua
alma, da essência', a mão dele correu pelas coxas dela, alisando
seus joelhos, suas canelas, 'Quanto mais eu gosto de alguém, quanto
mais uma pessoa me atraia o coração, mais vontade tenho de
perder-me nela, de esquecer meu cheiro nos cabelos e o som de minha
voz nos gemidos dela'. A andorinha piou, ainda de olhos fechados, com
suas perninhas tremendo ao toque de Rennard. 'Mas há uma diferença
entre nós, creio'.
Ainda arfando pelos
toques, Enna abriu os olhos, 'E qual seria?'. Rennard tirou as mãos
das coxas da andorinha e olhou-a com um carinho bastante travesso,
'Para ti, amiga, o sexo é a porta de entrada'. A andorinha deu uma
risada bastante divertida, infantilmente doce e deitou os braços em
cima dos ombros do raposo. 'E quando é que você vai deixar eu
entar, amigo?'.
O coração dele passou
uma batida e, por alguns segundos, ficou sem fala, perdido nos olhos
da andorinha. Ela, sorrindo como se voasse, aproximou o rosto e
beijou-lhe as orelhas, enquanto sussurrava, lentamente, 'E quando é
que vai me deixar entrar, hum?'. O raposo ganiu, os olhos fechados,
as mãos abaraçando as costas da andorinha, passando por debaixo de
sua camisola, arranhando sua pele. A andorinha, com a voz molhada de
sedução, repetiu pela terceira vez, 'E quando vai me deixar entrar,
vai, me diz'. As mãos dela apertavam dominadoras a cintura dele,
baixando sua calça. Rennard tremia, gania, gemia, mas juntou forças
para dizer, também ao ouvido da amiga: 'Quando a lua estiver no
céu!'.
E então se afastou,
sorrindo bobo, olhando com imensa amabilidade para a andorinha. Esta,
ajoelhada no chão frio, as mãos agora cruzadas atrás das costas,
estava com seu corpo cintilando na luz azulada do quarto. Ela sorria
e sorria, olhando curiosa e meiga para o amigo de longa data. Os dois
se fitaram em silêncio, ainda respirando rápido de desejo,
namorando um o outro à distância de alguns passos. O raposo tentou
se acalmar um pouco, tocando o próprio peito, ainda com uma risada
sem jeito estafada na cara, 'Desculpe se sou tão besta...'. A
andorinha, com os seios de pé, agora ria, olhando cravada nos olhos
do amigo. Ele ficou constrangido, e virou o olhar para o chão.
Depois de alguns momentos de silêncio, a andorinha diz: 'Eu te amo,
seu bobo'.
Rennard levanta o rosto
e mostra a língua para a andorinha, em seguida se aproximando,
deitando a cabeça nos seios dela e abraçando sua cintura nua,
'Também te amo, Enna'. A amiga afaga-lhe os cabelos e pontua, 'Tá
certo então, espero até a lua estar no céu. Mas aí não terá
desculpas para eu agarrar esse seu rabo lindo, entendeu amigo?'. O
raposo respondeu com uma risadinha abafada nos seios dela. 'Só
espero que isso tudo não seja medo de que, após te comer, você
ache que eu vá te deixar também', diz a andorinha, besta.
O raposo solta um
muxoxo de desaprovação, 'Não seja idiota amiga!'. Enna ri, beija o
topo dos cabelos do amigo e se levanta, indo até a janela do quarto.
A brisa fria da madrugada passou pela sua bunda pelada e ela
reclamou: 'Ai caramba, tá frio!'. Vendo a amiga na janela, Rennard
ri, 'Também, com essa bundona de fora, né miga?'. A andorinha nem
se virou para encarar o raposo, mostrando o dedo para ele de costas.
Depois de um tempo, diz, 'Olha só, os gatos e cães estão brigando
de novo. Mas parece que a coisa será engraçada, pois tem uns três
outros animais no meio da confusão'.
'Será que vai ser
sério?', pergunta o raposo, novamente alcançando o baixo elétrico
que havia deixado caído no chão. 'Sei lá', responde a andorinha,
'Mas acho que podemos tornar as coisas mais interessantes. Vamos
Rennard, toque alguma coisa que os faça gemer!'. Com um sorriso
sacana, o raposo responde, 'Isso será fácil, querida'.
E assim, o som de um
baixo elétrico começou a penetrar na noite escura.
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