domingo, 9 de novembro de 2014

Animalia - O raposo e a Andorinha sob luzes azuis



Num apartamento de medidas discretas, uma música soava grave. Ela vinha de um aparelho de som modesto – um blues antigo, lento e quente. Sentado ao chão, o raposo de cores escorridas seguia o compasso da música com seu baixo elétrico apoiado em suas coxas. O braço do instrumento elevava-se na escuridão e os dedos escorriam pelas cordas grossas. Atrás, com as costas encostadas nas dele, a andorinha de penas arqueadas ouvia atentamente, suas emoções ondulando para dentro e para fora com cada nota tocada.

'Enna', perguntou de súbito o raposo, sem que seus dedos parassem de tocar, 'Como vai Alarico?'. A andorinha, ainda de olhos fechados, parcialmente em transe, piou, 'Como sempre: queria que eu voasse mais baixo e mais próxima dele'. Deixando a música soar, o raposo demorou um pouco antes de voltar com a fala, 'Pobre do Alarico, não acho que ele entenda a tua situação'. A andorinha dançava sentada no mesmo lugar, esfregando as costas nas do raposo. 'E como poderia ele entender o sabor do vento? Só acho estranho que, para um gato, ele seja tão...carente'.

'Acha que ele seria melhor como um cão?', riu o raposo, 'Talvez esteja sendo muito normativista, querida'. A andorinha estalou o bico, 'Rennard, não seja besta!', erguendo os braços na escuridão, tocou suavemente a mão do raposo que continuava dedilhando o baixo, 'Você sabe muito bem que os gatos não costumam ser tão grudentos assim'.

O toque da mão de Enna era leve como bolhas de sabão. Rennard sentiu um salto na base de sua coluna. 'Há de entender, querida, que mesmo gatos acabam perdidos em ciúmes quando vêem sua parceira no meio de tantos rabos e pernas'. A andorinha ouviu, sorriu para si mesma, e deitou a cabeça nos ombros de Rennard, deixando seus cabelos caírem sobre o peito dele, 'Está insinuando que ele acha que não possa me satisfazer?'.

'Não só isso, mas também provavelmente ache que você acabará encontrando “algo melhor” e então o terminará largando', o raposo fala lentamente, atentando para a reação da andorinha. Ela, consternada, balançou a cabeça, deixando sair pela boca, 'Gato idiota...'. O raposo, beijando a bochecha dela, diz: 'Não fique chateada, amiga. É normal que ele pense assim'.

Mas a andorinha tensionava os ombros, 'Eu sei disso, Rennard. Eu sei muito bem disso'. Ela continuava balançando a cabeça, seus cabelos como tentáculos sobre o corpo do raposo, 'Só pensei que, depois de tudo, ele me entenderia melhor. Já conversei com ele, já dancei com ele, já mostrei para ele como meu coração treme quando está sozinho no escuro. Pensei que seria o suficiente para fazê-lo entender. Contudo, percebo claramente isso que você diz: ele tem medo de me perder através da pernas. Pior ainda, o medo dele é de que algum macho me “monte de jeito” e me roube dele, pois quando eu faço amor com Plipka ou as outras meninas, ele adora ouvir. Ha!', a andorinha pausou um instante, como se acumulasse despeito, e disse novamente, 'Gato idiota!'.

O raposo deitou o baixo elétrico ao chão e virou-se para encarar a amiga. Seu pelo avermelhado com fios cinzas e prateados eram pintados de preto no escuro. Olhando longamente aos olhos claros da andorinha, com os dedos percorrendo seus cabelos, sorriu: 'Querida, não deixe queimar essa angústia em você'. Mas a andorinha não permitiu que o raposo falasse mais deitando um dedo nos lábios dele, 'Não, Rennard. Não precisa defendê-lo. Eu sei, eu entendo o lado dele. Sei que é comum. Sei que é “normal”. Eu só queria que ele entendesse o meu. Só queria que ele sorrisse com o modo como eu sou. Que deixasse os temores dele. Que acreditasse...que confiasse em mim', ela suspirou, 'Queria que ele me entendesse'.

Ainda com o dedo sobre os lábios do raposo, Enna levantou o rosto e olhou para as feições de Rennard. 'Eu adoro...', foi o que ela disse com uma voz perdida, enevoada. Seu dedo desceu dos lábios do raposo, alisando seu queixo, seu pescoço, 'Eu adoro o corpo'. A andorinha se aproximou, de joelhos. Pela luz azulada que saía do aparelho de som, sua silhueta ganhava traços fantasmagóricos, como se sua pele fosse feita de neon. A andorinha estava quase nua. Vestia somente uma camisola que terminava ao meio de sua barriga. Suas pernas finas tocavam o azulejo frio do chão, e sua cintura nua começava agora a roçar na barriga do raposo.

'Adoro o toque, adoro o som das peles, adoro os movimentos, e como cada animal, cada um deles, ama diferente', a andorinha fechou os olhos, como se fosse tomada por lembranças etéreas, 'Adoro a maneira como as hienas machos rastejam pelas minhas pernas, e como as fêmeas puxam meus cabelos para me fazerem gritar. Adoro como os cavalos me completam por dentro, e como as cavalas são tão acolhedoras. Adoro o latido dos cães e o miado dos gatos. Adoro as novidades que me trazem os ratos, e adoro a fala confusa dos pombos. Adoro como os cervos me fazem parte de seu território. Adoro o pedantismo violento dos leões. Adoro a travada que os crocodilos me forçam nas pernas. Adoro as línguas longas das cobras. Tudo, todos, adoro cada um, e cada um deles ama diferente – nenhum rato guincha da mesma forma quando eu lhe aperto o rabo'.

Com sua camisa de manga comprida e sua calça longa, o raposo ouviu serenamente as palavras lambidas da andorinha, a qual ainda estava de olhos fechados. Alisando sua cintura nua, diz, 'Compreendo como te sente, querida. Estar tão próximo do corpo de alguém é como estar próximo da sua alma, da essência', a mão dele correu pelas coxas dela, alisando seus joelhos, suas canelas, 'Quanto mais eu gosto de alguém, quanto mais uma pessoa me atraia o coração, mais vontade tenho de perder-me nela, de esquecer meu cheiro nos cabelos e o som de minha voz nos gemidos dela'. A andorinha piou, ainda de olhos fechados, com suas perninhas tremendo ao toque de Rennard. 'Mas há uma diferença entre nós, creio'.

Ainda arfando pelos toques, Enna abriu os olhos, 'E qual seria?'. Rennard tirou as mãos das coxas da andorinha e olhou-a com um carinho bastante travesso, 'Para ti, amiga, o sexo é a porta de entrada'. A andorinha deu uma risada bastante divertida, infantilmente doce e deitou os braços em cima dos ombros do raposo. 'E quando é que você vai deixar eu entar, amigo?'.

O coração dele passou uma batida e, por alguns segundos, ficou sem fala, perdido nos olhos da andorinha. Ela, sorrindo como se voasse, aproximou o rosto e beijou-lhe as orelhas, enquanto sussurrava, lentamente, 'E quando é que vai me deixar entrar, hum?'. O raposo ganiu, os olhos fechados, as mãos abaraçando as costas da andorinha, passando por debaixo de sua camisola, arranhando sua pele. A andorinha, com a voz molhada de sedução, repetiu pela terceira vez, 'E quando vai me deixar entrar, vai, me diz'. As mãos dela apertavam dominadoras a cintura dele, baixando sua calça. Rennard tremia, gania, gemia, mas juntou forças para dizer, também ao ouvido da amiga: 'Quando a lua estiver no céu!'.

E então se afastou, sorrindo bobo, olhando com imensa amabilidade para a andorinha. Esta, ajoelhada no chão frio, as mãos agora cruzadas atrás das costas, estava com seu corpo cintilando na luz azulada do quarto. Ela sorria e sorria, olhando curiosa e meiga para o amigo de longa data. Os dois se fitaram em silêncio, ainda respirando rápido de desejo, namorando um o outro à distância de alguns passos. O raposo tentou se acalmar um pouco, tocando o próprio peito, ainda com uma risada sem jeito estafada na cara, 'Desculpe se sou tão besta...'. A andorinha, com os seios de pé, agora ria, olhando cravada nos olhos do amigo. Ele ficou constrangido, e virou o olhar para o chão. Depois de alguns momentos de silêncio, a andorinha diz: 'Eu te amo, seu bobo'.

Rennard levanta o rosto e mostra a língua para a andorinha, em seguida se aproximando, deitando a cabeça nos seios dela e abraçando sua cintura nua, 'Também te amo, Enna'. A amiga afaga-lhe os cabelos e pontua, 'Tá certo então, espero até a lua estar no céu. Mas aí não terá desculpas para eu agarrar esse seu rabo lindo, entendeu amigo?'. O raposo respondeu com uma risadinha abafada nos seios dela. 'Só espero que isso tudo não seja medo de que, após te comer, você ache que eu vá te deixar também', diz a andorinha, besta.

O raposo solta um muxoxo de desaprovação, 'Não seja idiota amiga!'. Enna ri, beija o topo dos cabelos do amigo e se levanta, indo até a janela do quarto. A brisa fria da madrugada passou pela sua bunda pelada e ela reclamou: 'Ai caramba, tá frio!'. Vendo a amiga na janela, Rennard ri, 'Também, com essa bundona de fora, né miga?'. A andorinha nem se virou para encarar o raposo, mostrando o dedo para ele de costas. Depois de um tempo, diz, 'Olha só, os gatos e cães estão brigando de novo. Mas parece que a coisa será engraçada, pois tem uns três outros animais no meio da confusão'.

'Será que vai ser sério?', pergunta o raposo, novamente alcançando o baixo elétrico que havia deixado caído no chão. 'Sei lá', responde a andorinha, 'Mas acho que podemos tornar as coisas mais interessantes. Vamos Rennard, toque alguma coisa que os faça gemer!'. Com um sorriso sacana, o raposo responde, 'Isso será fácil, querida'.


E assim, o som de um baixo elétrico começou a penetrar na noite escura.

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