domingo, 30 de novembro de 2014

Animalia - ...Mandragora...




Escuridão. Nela, infinitas indistinções se atracavam, em uníssono, como numa sinfonia surda de gestos e sinais, como um coração que podia bater em silêncio, ininterrupto e ineximível. Mas da harmonia vazia, uma voz gritante irrompe: 'O escuro é insondável'. E outra, gritante, complementa: 'Então, para que nos possamos apontar, haverá luz'.

Flash! Clarão. Infinitas indistinções de forma agora se arrastavam e se escondiam do enorme holofote que fora ligado. Eram amálgamas de panos, tecidos e carnes. Suas cores múltiplas, para além dos números. Algumas eram rajadas de estrelas, outras eram farpas de vento. Na superfície de suas peles, escorriam rios, águas que se transmudavam a todo instante.

E, novamente, a voz gritante diz: 'A multidão das formas é caótica e má'. E a outra, gritante, complementa: 'Então, para que possa haver definição, haverá somente duas corretas'. E as duas vozes no centro do holofote rasgaram os panos, tecidos e carnes de si, ficando ali nuas, magras, altas, brancas, fantasmagóricas pela luz, de pé. Com olhos de vidro e plástico, olhavam a miríade de outras silhuetas que, ainda pasmas, tentavam proteger-se da luz.

Apática e mecânica, continuou uma voz: 'Às duas formas corretas se dará nomes, justiça, e o direito à luz. Ao resto, indiscernível, haverá a doença'. E, grunhindo, as criaturas disformes se viraram para a orla da luz, se escondendo, fugindo, existindo como atentados à lei e ordem. E a outra voz, observando o palco esvaziar-se, completou: 'E uma das duas formas será mais correta e mais justa', e, com seu corpo maior e suas mãos brancas, obrigou a primeira a empinar-se.

E ele, sobre ela, continuou: 'E quanto às formas, o nome delas será sexo', e puxou os pelos dela, 'E a expressão delas será sexo', e chocou-se contra as costas dela, 'E o encontro delas será sexo!', e gritou mais alto que as lágrimas dela. De súbito, a soltou, deixando-a ir ao chão de joelhos, 'E o erro dela será sexo', pontuou.

Virando-se para o chão, ele tomou restos das peles e panos e os jogou sobre ela, com descaso, 'Toda nudez que não propicie prazer será velada em sombras'. Ela, de joelhos, repetiu o que fora por ele dito, de maneira baixa, despondente, desalmada. E então, ambos se vestem. Daí, ele continua, 'Haverá desejo sexual, e somente pelo corpo, e somente pelo sexo oposto. E assim será bom'. Ela, ouvindo, repetiu, baixinho, fraquinho. E ele, virando-se para todos os escutantes na escuridão, bradou: 'E todos, ao nascerem com formas, farão parte do sexo, e terão nome e justiça. E assim será bom'. E muitas formas indistintas se afastaram da escuridão, rasgando suas peles como podiam, tentando – sem conseguir – ser iguais aos dois fantasmas altos, de pelos brilhantes que ali estavam no centro do holofote. Era um horror de corpos deformados que rastejavam em volta dela, ajoelhada, e Dele, de pé.

E ele, falando a todos, seguiu: 'E como assim tudo é bom, toda discussão contrária será vista como hostil. Toda insinuação e toda palavra serão vista com desgosto, raiva, pavor ou piada. E assim é bom, e assim é justo'. Ele olhou para ela, e, novamente, ela repetiu as palavras dele, sem vida e, como num eco, também todas as outras formas mutiladas, igualmente, repetiram as palavras dele e dela. E ele, enfim, virando-se para todos, finalizou: 'E assim, com tudo tendo seu lugar e seus conformes, que haja dia!'.


E o holofote raiou-se por todos os cantos, como raízes que vassalavam todas as animadas almas.

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(Obs: Haec offero ad noctam quae primo cogitavit; ou, em outras palavras, este texto vai para a coruja que primeiro o pensou e que eu, interessado, desenvolvi, =3)

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