sábado, 1 de novembro de 2014

Animalia extra - A andorinha e o gato



'Eu te gosto', a andorinha disse olhando para a janela, despretensiosa, soltíssima. Estava de joelhos no chão, com o dorso deitado sobre a cama e a cabeça repousada nos braços, relaxada e serena. Atrás dela, um gato passava as patas por todo o comprimento de suas costas, com o nariz deslizando no topo de seus ombros.

'Sim, percebo claramente te gostar', e ela levantou a cabeça, esticando a coluna, fazendo um 'S' com a espinha, acentuando a curva de seu quadril e a proeminência das omoplatas. O gato ouvia, mas continuava em silêncio, derrapando nas curvas e com seu peito serpenteando as costas da andorinha.

A andorinha esticou um braço, depois o outro, seus olhos vagando pelos céus através da janela. O dia chegava. A luz do sol começava a raiar longe, desfraldando os cobertores luminosos em cores avermelhadas, quentes como o arfar cansado entre beijos. A ave sorriu, quase imaginando a luz da manhã como um abraço sobre sua pele. O gato mordeu-lhe o pescoço e ela soltou um pio alegre, levando seus olhos aos dele. Uma troca de infinitos assédios mútuos foi feita em silêncio compenetrado, sério e solto e simples. A andorinha levou uma mão ao rosto do gato, que passou da língua áspera entre seus dedos.

'Logo o dia ficará de pé, e teremos que seguir caminhos. Sabes disso', havia peso no canto dela, mas o gato continuou a lamber-lhe os dedos, quase de olhos fechados, como que fora de fase. A andorinha sentia, tremente, enquanto o corpo dele ainda enrodiscava-lhe nas costas. 'Sei das milhares de palavras que prefere engolir do que confrontar essa verdade. Mas sabes que estou certa. Ao nascer do dia, voltamos todos às tocas. Não torne o separar mais difícil do que já seja'.

O gato curvou-se nas quatro patas, empinando a cauda, seu rosto escorrendo das costas pelas costelas, através do ventre, da barriga, deitando enfim nas coxas da andorinha – sempre em silêncio, apesar de seu coração gritar aos berros de batidas e repliques. A andorinha quase resistiu, fazendo menção de mover do quadril ou reajustar o ângulo das pernas, mas sentiu o ar quente da boca gatuna em suas pernas e sua pele cedeu num eriçar de pelos e penas profundo. Soltou um pio de bico fechado, estalando açulado de fome acolorada. Abateu os dedos sobre e sob os cabelos do gato, apertando forte, enquanto este corria a língua por fora, por dentro, do topo ao baixo de sua coxa.

Entre tremores e revulsões, viu o céu avermelhando quente, as nuvens sopravam-se agitadas, o vermelho derretia em amarelo, as brisas dissolviam-se em fogo, úmidas de gotas de água. Os dedos, trepidando nos cabelos do gato, fincavam-se como garras cada vez mais fundos, respondendo à língua grudante felina. Mas quando já fazia dourar o amarelo ao céu, a andorinha, ainda convulsante, tomou forças de uma resolução decidida e puxou o gato para prestar-lhe atenção.

'Sabes eu ter quer ir', sua voz enunciou quebradiça, mas irredutível. O gato finalmente esboçou alguma resposta, baixando as orelhas. A andorinha conhecia aquele olhar, aquele horizonte defasado, um labirinto entre ruínas esquecidas. Movida, ela levantou docemente o queixo do gato, 'Não pensa assim. Não acompanhe a solidão, nem dê abrigo às ideias de abandono. Perceba as coisas pela volatilidade do ar'. Ela pausou, deixando suas palavras assentarem-se um pouco em silêncio, enquanto seus olhos fitavam amavelmente os do gato.

'Tens medo de a porta amanhã não mais trazer minha imagem, eu sei. Tens medo de o mar que você derrama sobre mim não ser equivalente nem mesmo a um riacho dentro do meu peito', e apertou severa o queixo dele, demandando atenção, 'Mas isso são medos, gato, somente medos sobre ilusões'. Ela aproximou-se, os olhos de ambos crescendo como cristais, 'Nunca existiu tudo que tivemos. Nunca existirá as portas que se abrirão. Só existe isso, aqui, agora – tudo que somos está no limite de nossos corpos e todas as dimensões deles. Somos enquanto trocarmos de sopro. Essa é a beleza de tudo, a transitividade de existirmos entre as lacunas um do outro'. Os rostos dos dois estavam a um pelo de distância. O gato esboçava uma ranhura de choro, a andorinha sorria rebrilhosamente, 'Ao pensar possuirmos algo um do outro, é nesse momento que perdemos tudo que poderíamos haver tido. Somos tanto quanto não tivermos', ela fez uma pausa, deitou a mão na cauda do gato, apertou-a travessamente, e continuou, 'Eu te nada possuo, e por isso sou como o ar pulsando dentro de seus pulmões, fazendo balançar esse seu rabo lindo. E agora...', e fez outra pausa, atiçante, 'Me empresta da tua boca um momentinho? Quero-te sentir a água do corpo'.

...Mais depois, a andorinha encontra no corredor a lagartixa. Beijou-lhe calmamente os lábios e avisou que estava saindo. 'Mas tão cedo, amiga?', reclamou a lagartixa, levando a mão à cintura, 'Mas Alarico ficará inconformado!'. A andorinha deu de ombros, leve, 'Nada possa ser feito, querida. Por que não vai alegrá-lo então? Sei que adora forçar as pernas daquele pequeno'. A lagartixa deu uma risada provocante, com sua língua réptil para fora. A andorinha beijou-lhe a boca e abraçou-lhe extremamente apertado, antes de sair pela porta afora.

O sol iluminava uma manhã promissoramente fofa. A andorinha sorriu boba, andando quase aos saltos, levitando. A luz do sol, lambendo sua pele, era como as mãos mais deliciosamente delicadas fazendo carinhos maravilhosos. Levando uma de suas mãos às coxas, sentiu-se ainda tremendo um pouco. Lembrou-se do gato, sossorriu-se um pouco e continuou o caminho.


'Hoje é um dia caudalosamente macio!'.

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