'Eu te gosto', a
andorinha disse olhando para a janela, despretensiosa, soltíssima.
Estava de joelhos no chão, com o dorso deitado sobre a cama e
a cabeça repousada nos braços, relaxada e serena. Atrás
dela, um gato passava as patas por todo o comprimento de suas costas,
com o nariz deslizando no topo de seus ombros.
'Sim, percebo
claramente te gostar', e ela levantou a cabeça, esticando a
coluna, fazendo um 'S' com a espinha, acentuando a curva de seu
quadril e a proeminência das omoplatas. O gato ouvia, mas
continuava em silêncio, derrapando nas curvas e com seu peito
serpenteando as costas da andorinha.
A andorinha esticou um
braço, depois o outro, seus olhos vagando pelos céus
através da janela. O dia chegava. A luz do sol começava
a raiar longe, desfraldando os cobertores luminosos em cores
avermelhadas, quentes como o arfar cansado entre beijos. A ave
sorriu, quase imaginando a luz da manhã como um abraço
sobre sua pele. O gato mordeu-lhe o pescoço e ela soltou um
pio alegre, levando seus olhos aos dele. Uma troca de infinitos
assédios mútuos foi feita em silêncio
compenetrado, sério e solto e simples. A andorinha levou uma
mão ao rosto do gato, que passou da língua áspera
entre seus dedos.
'Logo o dia ficará
de pé, e teremos que seguir caminhos. Sabes disso', havia peso
no canto dela, mas o gato continuou a lamber-lhe os dedos, quase de
olhos fechados, como que fora de fase. A andorinha sentia, tremente,
enquanto o corpo dele ainda enrodiscava-lhe nas costas. 'Sei das
milhares de palavras que prefere engolir do que confrontar essa
verdade. Mas sabes que estou certa. Ao nascer do dia, voltamos todos
às tocas. Não torne o separar mais difícil do
que já seja'.
O gato curvou-se nas
quatro patas, empinando a cauda, seu rosto escorrendo das costas
pelas costelas, através do ventre, da barriga, deitando enfim
nas coxas da andorinha – sempre em silêncio, apesar de seu
coração gritar aos berros de batidas e repliques. A
andorinha quase resistiu, fazendo menção de mover do
quadril ou reajustar o ângulo das pernas, mas sentiu o ar
quente da boca gatuna em suas pernas e sua pele cedeu num eriçar
de pelos e penas profundo. Soltou um pio de bico fechado, estalando
açulado de fome acolorada. Abateu os dedos sobre e sob os
cabelos do gato, apertando forte, enquanto este corria a língua
por fora, por dentro, do topo ao baixo de sua coxa.
Entre tremores e
revulsões, viu o céu avermelhando quente, as nuvens
sopravam-se agitadas, o vermelho derretia em amarelo, as brisas
dissolviam-se em fogo, úmidas de gotas de água. Os
dedos, trepidando nos cabelos do gato, fincavam-se como garras cada
vez mais fundos, respondendo à língua grudante felina.
Mas quando já fazia dourar o amarelo ao céu, a
andorinha, ainda convulsante, tomou forças de uma resolução
decidida e puxou o gato para prestar-lhe atenção.
'Sabes eu ter quer ir',
sua voz enunciou quebradiça, mas irredutível. O gato
finalmente esboçou alguma resposta, baixando as orelhas. A
andorinha conhecia aquele olhar, aquele horizonte defasado, um
labirinto entre ruínas esquecidas. Movida, ela levantou
docemente o queixo do gato, 'Não pensa assim. Não
acompanhe a solidão, nem dê abrigo às ideias de
abandono. Perceba as coisas pela volatilidade do ar'. Ela pausou,
deixando suas palavras assentarem-se um pouco em silêncio,
enquanto seus olhos fitavam amavelmente os do gato.
'Tens medo de a porta
amanhã não mais trazer minha imagem, eu sei. Tens medo
de o mar que você derrama sobre mim não ser equivalente
nem mesmo a um riacho dentro do meu peito', e apertou severa o queixo
dele, demandando atenção, 'Mas isso são medos,
gato, somente medos sobre ilusões'. Ela aproximou-se, os olhos
de ambos crescendo como cristais, 'Nunca existiu tudo que tivemos.
Nunca existirá as portas que se abrirão. Só
existe isso, aqui, agora – tudo que somos está no limite de
nossos corpos e todas as dimensões deles. Somos enquanto
trocarmos de sopro. Essa é a beleza de tudo, a transitividade
de existirmos entre as lacunas um do outro'. Os rostos dos dois
estavam a um pelo de distância. O gato esboçava uma
ranhura de choro, a andorinha sorria rebrilhosamente, 'Ao pensar
possuirmos algo um do outro, é nesse momento que perdemos tudo
que poderíamos haver tido. Somos tanto quanto não
tivermos', ela fez uma pausa, deitou a mão na cauda do gato,
apertou-a travessamente, e continuou, 'Eu te nada possuo, e por isso
sou como o ar pulsando dentro de seus pulmões, fazendo
balançar esse seu rabo lindo. E agora...', e fez outra pausa,
atiçante, 'Me empresta da tua boca um momentinho? Quero-te
sentir a água do corpo'.
...Mais depois, a
andorinha encontra no corredor a lagartixa. Beijou-lhe calmamente os
lábios e avisou que estava saindo. 'Mas tão cedo,
amiga?', reclamou a lagartixa, levando a mão à cintura,
'Mas Alarico ficará inconformado!'. A andorinha deu de ombros,
leve, 'Nada possa ser feito, querida. Por que não vai
alegrá-lo então? Sei que adora forçar as pernas
daquele pequeno'. A lagartixa deu uma risada provocante, com sua
língua réptil para fora. A andorinha beijou-lhe a boca
e abraçou-lhe extremamente apertado, antes de sair pela porta
afora.
O sol iluminava uma
manhã promissoramente fofa. A andorinha sorriu boba, andando
quase aos saltos, levitando. A luz do sol, lambendo sua pele, era
como as mãos mais deliciosamente delicadas fazendo carinhos
maravilhosos. Levando uma de suas mãos às coxas,
sentiu-se ainda tremendo um pouco. Lembrou-se do gato, sossorriu-se
um pouco e continuou o caminho.
'Hoje é um dia
caudalosamente macio!'.
Imagem 1
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