sábado, 29 de novembro de 2014

Animalia – Num bar no alto bairro 4, Vento e Chuva

Animalia – Num bar no alto bairro 4, Vento e Chuva



'Enna!', o raposo dizia alto, tentando aproximar-se da andorinha que se evolava pelas ruas e becos. Deixando para trás os bares, a algazarra e a sombra esfumaçada do unicórnio, o raposo fez o que pode para alcançar a ágil andorinha. Mas quanto mais se esgueirava pelas paredes estreitas, mas via a silhueta dela sumindo no limite de sua visão. Quando já desistia de conseguir alcançá-la, viu-a sentada num banco de concreto numa praça quase vazia. Aproximou-se discreto, tocando suavemente o ombro da amiga. 'Enna?', falou com a voz receosa.

A andorinha soltou um suspiro longo e pesado. Não o suspiro de alguém triste, mas sim de alguém extremamente aborrecido. 'Mas que noite desastrosa', comentou finalmente após um longo intervalo em que simplesmente apertava a ponta dos dedos contra as têmporas. Então levantou o rosto para encarar o raposo que a estava olhando, 'Você consegue acreditar nisso tudo Rennard?'. Encabulado, ainda bastante envergonhado com o que se passou, o rapaz ficou em silêncio, observando como a andorinha reagiria. Com descaso, ela abriu o peito, apoiando-se nas mãos espalmadas: 'A porra da flor me ignorou. Você viu?'.

Rennard não esperava por aquilo. Imaginou que a andorinha iria explodir para cima dele por tudo que o unicórnio disse. Talvez o acusasse, talvez lhe jurasse ali, naquele momento, ódio mortal. Mas lá estava ela, é verdade, irritada, mas bastante recolecta. Ele ainda não conseguiu falar, apenas observando, um tanto mesmerizado, a compostura misteriosamente comedida da amiga. A jovem virou os olhos claros para os escuros do amigo e, percebendo a extrema tensão que neles havia, deu uma risada. 'Relaxa essa bunda, cara. Está tudo bem'.

Os ombros de Rennard desceram da posição travada. Ainda não podia realmente no que acontecia, que toda aquela bomba tivesse sido desarmada, que a andorinha estivesse tão leve. Virnado o pescoço em confusão, perguntou trêmulo, 'Tudo bem? Mas...e o unicórnio?'. Ela estalou o bico, 'Bah, deixa disso, relaxa' e, mostrando a sinceridade no sorriso de seu bico, ela confirmou, 'Sim, está tudo bem'. Com esta última confirmação, o raposo desabou ao lado da amiga, abraçando-a tão apertado que quase fez o ar chiar em seu pulmão. 'Querido, assim vai quebar minha asas!'.

O raposo afrouxou o aperto de seus braços e, com o focinho, percorria agora entre os cabelos da andorinha, bijando-lhe as bochechas com carinho triplicado. Sua cauda felpuda abanava e roçava nas canelas da amiga, 'Sua linda!'. A andorinha por alguns segundos fez-se de rabugenta, como que num jogo, fingindo não gostar. Mas era apenas uma brincadeira já antiga entre os dois e logo era toda sorrisos e oferecia a pele às carícias de Rennard. E o raposo sentou nos joelhos, ficando ao lado da andorinha, seu peito comprimindo-se contra o ombro da amiga, seus lábios beijando o topo da cabeça e descendo, pelo rosto, pelo nariz, demorando-se nos lábios. E repetiu, baixinho, 'Sua linda', com os lábios colados nos dela, o som saindo abafado por entre os beiços. Desceu, beijando-lhe o pescoço, lambendo-lhe, lentamente. Então, num rompante súbito, ergueu o rosto e fitou-a nos olhos, sorriu, levantou-se dos joelhos e, delicadamente, sentou-se no colo dela, com as coxas voltadas para a cintura dela e as pernas se cruzando nas costas da andorinha. Olhando demoradamente nos olhos claros de Enna, Rennard diz: 'Obrigado amiga'. Em seguida, deita a cabeça no ombro dela, deixando os cabelos caírem como cortinas sobre si, 'Eu não sei como iria aguentar caso você tivesse se machucado, caso você me viesse acusar...'.

A andorinha sorriu, mas manteve um semblante sério. Entrelaçou os dedos na mão de Rennard e, com naturalidade, falou, 'Amigo, eu me machuquei'. Rennard contraiu-se um pouco no colo dela, contrafeito, 'Oh...desculpe'. Mas a andorinha balançou a cabeça, 'Ow, não se preocupe. Não foi nada sério, eu estou bem. Só não vou fingir como se não tivesse me magoado, entende?', e então bagunçou-lhe os cabelos, 'Eu conheço o unicórnio, e sei quão violentas as palavras dele podem ser. Mas, acima de tudo, eu te conheço. E sei o quão sinceras e carinhosas as suas palavras são'. O raposo sorriu rebrilhante e comprimiu com as coxas a cintura da andorinha, 'Ah, pára, Enna! Quer me fazer chorar, é?'.

Novamente, os olhares dos dois se encontraram e em silêncio permaneceram por algum tempo, como se mergulhassem um no outro. O vento ao redor aumentava gradativamente, o concreto do banco esfriava. Com os dedos ociosos, o raposo enrolava o cabelo da andorinha, 'Queria ser mais sexual', comentou, baixinho, num muxoxo meio amedrontado, meio tenso, 'Os outros bichos parecem enfeitiçados quando falam disso, sabe? Parece mágico, como se abalroasse o ser por completo. E se eu fosse mais sexual, talvez você não precisaria ouvir essas coisas do unicórn...'. A andorinha cortou Rennard beijando-lhe a boca. E foi tão súbito e forte que ele deu um saltinho, sua respiração cortada em meio pulso. Quando ela afastou os lábios, ele ainda gemia baixo. Ela percorreu os dedos em seus cabelos, apertando-lhe a nuca e falando com amor, desejo e uma divertidíssima ironia: 'Sabe amigo, às vezes tenho a impressão de que você me imagina como uma máquina de avassalar genitálias!'. O raposo riu do comentário entre gemidos fortes, conforme a andorinha apertava sua nuca com uma mão e com a outra lhe alisava os peito, 'Eu não sou tão assustadora assim, sou?'. Se recompondo um pouco, Rennard fala, arfando, 'Talvez um pouquinho, Enna. Mas eu só disse isso porque, caso eu fosse assim, caso eu fosse mais como os outros, talvez fosse melhor. Talvez...', e novamente a andorinha interrompeu-o com um beijo. Desta vez mais profundo, a língua dela empurrando contra a dele, o raposo chegou a tremer nos braços dela.

'Não se martirize com pensamentos assim, querido. Todos se indagam a todo momento, todos têm dúvidas. E ficam se acusando, fazendo esse fantoche de sombras. Mas não importa o que digam, ou o quanto o unicórnio queira enfiar seu chifre onde não é chamado, devemos ser como podemos ser, na medida da abertura de nossas asas. Foda-se se isso vai contra os padrões do centro, das ruas ou dos becos!'. Rennard sorria com as palavras dela, envolvendo-lhe o pescoço com os braços, 'Nossa, de onde veio essa afirmatividade toda, amiga?'. A andorinha riu com um tantinhozinho de preopotência, 'Ah, você sabe Rennard. Eu vi muitas coisas, andei por muitos lugares, e aprendi algo aqui e ali. Por exemplo, já amaste com os insetos? É uma experiência de abrir os olhos, hehe'. Rennard, surpresíssimo com o comentário da amiga, cutucou-lhe as costelas, 'Enna, mas o que é isso? Agora você é minha heroína!', falou brincando.

'Heroína? Que nada. Não é para tanto'. Subitamente, o sorriso da andorinha tomou proporções taciturnas. Ela virou o rosto para baixo, silenciosa, 'Sabe, nessa noite eu só queria...que Sândalo não tivesse me rejeitado. Ou, se rejeitado, que não tivesse sido assim, sabe? Eu estava lá, entregue, jogada. O perfume dela, sua pele macia, aquela cintura, aquelas pernas. E mesmo que eu apertasse, arranhasse, mordesse, ela me ignorava. Foi tão ruim, tão...vazio', e a voz dela tomou profundidas tétricas de tristeza. 'Parece que caímos justamente quando temos certeza que estamos seguros. É como se...'.

E dessa vez foi o raposo que interrompeu a andorinha com um beijo. Ficaram ali, com as línguas dançando, por alguns momentos. Finalmente, o raposo diz enquanto se afastava, 'Amiga, relaxa, está tudo bem'. Os olhos da andorinha encheram-se de lágrimas, 'Agora é você que me quer fazer chorar, querido?'.

Os dois sorriam. Os ventos agora eram tão altos que gritavam em seus ouvidos. Gotas geladas de chuva começavam a salpicar-lhes os corpos. Os outros bichos abandonavam rapidamente a praça, fugindo da tempestade que se aproximava. Primeiro em gotas chuviscadas, depois numa torrente pesada, logo andorinha e raposo se tornavam quase indistintos das poças de água no chão de concreto da praça.

'Ai, minha bunda está congeladaa!', falou a andorinha, rindo, encharcada, ainda com o raposo sentado em seu colo. 'Ah, é?', disse Rennard malicioso, com as patas indo até as nádegas da andorinha e apertando, 'Realmente está. Mas a minha também, olha', e, segurando nas mãos da amiga, levou-as até seu próprio rabo, 'Está vendo?'. Enna, com malvadeza no olhar, apertou forte e riu, 'Realmente, tá gelada. Mas eu posso esquentá-la'. O raposo abriu um sorriso de safadezas, olhando-a com desejo. 'É mesmo?', perguntou, escondendo o rosto nos cabelos dela, 'Então vai, me esquenta'. A andorinha puxou-o pela cintura, colando seu ventre no de Rennard. Este, num gemido sufocado nos cabelos dela, diz sem ar, 'Te amo'. E a andorinha, com as mãos entrando pelas calças dele, responde, num pio de eco, 'Te amo'.


E a chuva caía forte em lufadas de vento, molhando os dois até escorrerem um no outro.

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