Animalia
– Num bar no alto bairro 4, Vento e Chuva
'Enna!', o raposo dizia alto, tentando aproximar-se da andorinha que
se evolava pelas ruas e becos. Deixando para trás os bares, a
algazarra e a sombra esfumaçada do unicórnio, o raposo fez o que
pode para alcançar a ágil andorinha. Mas quanto mais se esgueirava
pelas paredes estreitas, mas via a silhueta dela sumindo no limite de
sua visão. Quando já desistia de conseguir alcançá-la, viu-a
sentada num banco de concreto numa praça quase vazia. Aproximou-se
discreto, tocando suavemente o ombro da amiga. 'Enna?', falou com a
voz receosa.
A andorinha soltou um suspiro longo e pesado. Não o suspiro de
alguém triste, mas sim de alguém extremamente aborrecido. 'Mas que
noite desastrosa', comentou finalmente após um longo intervalo em
que simplesmente apertava a ponta dos dedos contra as têmporas.
Então levantou o rosto para encarar o raposo que a estava olhando,
'Você consegue acreditar nisso tudo Rennard?'. Encabulado, ainda
bastante envergonhado com o que se passou, o rapaz ficou em silêncio,
observando como a andorinha reagiria. Com descaso, ela abriu o peito,
apoiando-se nas mãos espalmadas: 'A porra da flor me ignorou. Você
viu?'.
Rennard não esperava por aquilo. Imaginou que a andorinha iria
explodir para cima dele por tudo que o unicórnio disse. Talvez o
acusasse, talvez lhe jurasse ali, naquele momento, ódio mortal. Mas
lá estava ela, é verdade, irritada, mas bastante recolecta. Ele
ainda não conseguiu falar, apenas observando, um tanto mesmerizado,
a compostura misteriosamente comedida da amiga. A jovem virou os
olhos claros para os escuros do amigo e, percebendo a extrema tensão
que neles havia, deu uma risada. 'Relaxa essa bunda, cara. Está tudo
bem'.
Os ombros de Rennard desceram da posição travada. Ainda não podia
realmente no que acontecia, que toda aquela bomba tivesse sido
desarmada, que a andorinha estivesse tão leve. Virnado o pescoço em
confusão, perguntou trêmulo, 'Tudo bem? Mas...e o unicórnio?'. Ela
estalou o bico, 'Bah, deixa disso, relaxa' e, mostrando a sinceridade
no sorriso de seu bico, ela confirmou, 'Sim, está tudo bem'. Com
esta última confirmação, o raposo desabou ao lado da amiga,
abraçando-a tão apertado que quase fez o ar chiar em seu pulmão.
'Querido, assim vai quebar minha asas!'.
O raposo afrouxou o aperto de seus braços e, com o focinho,
percorria agora entre os cabelos da andorinha, bijando-lhe as
bochechas com carinho triplicado. Sua cauda felpuda abanava e roçava
nas canelas da amiga, 'Sua linda!'. A andorinha por alguns segundos
fez-se de rabugenta, como que num jogo, fingindo não gostar. Mas era
apenas uma brincadeira já antiga entre os dois e logo era toda
sorrisos e oferecia a pele às carícias de Rennard. E o raposo
sentou nos joelhos, ficando ao lado da andorinha, seu peito
comprimindo-se contra o ombro da amiga, seus lábios beijando o topo
da cabeça e descendo, pelo rosto, pelo nariz, demorando-se nos
lábios. E repetiu, baixinho, 'Sua linda', com os lábios colados nos
dela, o som saindo abafado por entre os beiços. Desceu, beijando-lhe
o pescoço, lambendo-lhe, lentamente. Então, num rompante súbito,
ergueu o rosto e fitou-a nos olhos, sorriu, levantou-se dos joelhos
e, delicadamente, sentou-se no colo dela, com as coxas voltadas para
a cintura dela e as pernas se cruzando nas costas da andorinha.
Olhando demoradamente nos olhos claros de Enna, Rennard diz:
'Obrigado amiga'. Em seguida, deita a cabeça no ombro dela, deixando
os cabelos caírem como cortinas sobre si, 'Eu não sei como iria
aguentar caso você tivesse se machucado, caso você me viesse
acusar...'.
A andorinha sorriu, mas manteve um semblante sério. Entrelaçou os
dedos na mão de Rennard e, com naturalidade, falou, 'Amigo, eu me
machuquei'. Rennard contraiu-se um pouco no colo dela, contrafeito,
'Oh...desculpe'. Mas a andorinha balançou a cabeça, 'Ow, não se
preocupe. Não foi nada sério, eu estou bem. Só não vou fingir
como se não tivesse me magoado, entende?', e então bagunçou-lhe os
cabelos, 'Eu conheço o unicórnio, e sei quão violentas as palavras
dele podem ser. Mas, acima de tudo, eu te conheço. E sei o quão
sinceras e carinhosas as suas palavras são'. O raposo sorriu
rebrilhante e comprimiu com as coxas a cintura da andorinha, 'Ah,
pára, Enna! Quer me fazer chorar, é?'.
Novamente, os olhares dos dois se encontraram e em silêncio
permaneceram por algum tempo, como se mergulhassem um no outro. O
vento ao redor aumentava gradativamente, o concreto do banco
esfriava. Com os dedos ociosos, o raposo enrolava o cabelo da
andorinha, 'Queria ser mais sexual', comentou, baixinho, num muxoxo
meio amedrontado, meio tenso, 'Os outros bichos parecem enfeitiçados
quando falam disso, sabe? Parece mágico, como se abalroasse o ser
por completo. E se eu fosse mais sexual, talvez você não precisaria
ouvir essas coisas do unicórn...'. A andorinha cortou Rennard
beijando-lhe a boca. E foi tão súbito e forte que ele deu um
saltinho, sua respiração cortada em meio pulso. Quando ela afastou
os lábios, ele ainda gemia baixo. Ela percorreu os dedos em seus
cabelos, apertando-lhe a nuca e falando com amor, desejo e uma
divertidíssima ironia: 'Sabe amigo, às vezes tenho a impressão de
que você me imagina como uma máquina de avassalar genitálias!'. O
raposo riu do comentário entre gemidos fortes, conforme a andorinha
apertava sua nuca com uma mão e com a outra lhe alisava os peito,
'Eu não sou tão assustadora assim, sou?'. Se recompondo um pouco,
Rennard fala, arfando, 'Talvez um pouquinho, Enna. Mas eu só disse
isso porque, caso eu fosse assim, caso eu fosse mais como os outros,
talvez fosse melhor. Talvez...', e novamente a andorinha
interrompeu-o com um beijo. Desta vez mais profundo, a língua dela
empurrando contra a dele, o raposo chegou a tremer nos braços dela.
'Não se martirize com pensamentos assim, querido. Todos se indagam a
todo momento, todos têm dúvidas. E ficam se acusando, fazendo esse
fantoche de sombras. Mas não importa o que digam, ou o quanto o
unicórnio queira enfiar seu chifre onde não é chamado, devemos ser
como podemos ser, na medida da abertura de nossas asas. Foda-se se
isso vai contra os padrões do centro, das ruas ou dos becos!'.
Rennard sorria com as palavras dela, envolvendo-lhe o pescoço com os
braços, 'Nossa, de onde veio essa afirmatividade toda, amiga?'. A
andorinha riu com um tantinhozinho de preopotência, 'Ah, você sabe
Rennard. Eu vi muitas coisas, andei por muitos lugares, e aprendi
algo aqui e ali. Por exemplo, já amaste com os insetos? É uma
experiência de abrir os olhos, hehe'. Rennard, surpresíssimo com o
comentário da amiga, cutucou-lhe as costelas, 'Enna, mas o que é
isso? Agora você é minha heroína!', falou brincando.
'Heroína? Que nada. Não é para tanto'. Subitamente, o sorriso da
andorinha tomou proporções taciturnas. Ela virou o rosto para
baixo, silenciosa, 'Sabe, nessa noite eu só queria...que Sândalo
não tivesse me rejeitado. Ou, se rejeitado, que não tivesse sido
assim, sabe? Eu estava lá, entregue, jogada. O perfume dela, sua
pele macia, aquela cintura, aquelas pernas. E mesmo que eu apertasse,
arranhasse, mordesse, ela me ignorava. Foi tão ruim, tão...vazio',
e a voz dela tomou profundidas tétricas de tristeza. 'Parece que
caímos justamente quando temos certeza que estamos seguros. É como
se...'.
E dessa vez foi o raposo que interrompeu a andorinha com um beijo.
Ficaram ali, com as línguas dançando, por alguns momentos.
Finalmente, o raposo diz enquanto se afastava, 'Amiga, relaxa, está
tudo bem'. Os olhos da andorinha encheram-se de lágrimas, 'Agora é
você que me quer fazer chorar, querido?'.
Os dois sorriam. Os ventos agora eram tão altos que gritavam em seus
ouvidos. Gotas geladas de chuva começavam a salpicar-lhes os corpos.
Os outros bichos abandonavam rapidamente a praça, fugindo da
tempestade que se aproximava. Primeiro em gotas chuviscadas, depois
numa torrente pesada, logo andorinha e raposo se tornavam quase
indistintos das poças de água no chão de concreto da praça.
'Ai, minha bunda está congeladaa!', falou a andorinha, rindo,
encharcada, ainda com o raposo sentado em seu colo. 'Ah, é?', disse
Rennard malicioso, com as patas indo até as nádegas da andorinha e
apertando, 'Realmente está. Mas a minha também, olha', e, segurando
nas mãos da amiga, levou-as até seu próprio rabo, 'Está vendo?'.
Enna, com malvadeza no olhar, apertou forte e riu, 'Realmente, tá
gelada. Mas eu posso esquentá-la'. O raposo abriu um sorriso de
safadezas, olhando-a com desejo. 'É mesmo?', perguntou, escondendo o
rosto nos cabelos dela, 'Então vai, me esquenta'. A andorinha
puxou-o pela cintura, colando seu ventre no de Rennard. Este, num
gemido sufocado nos cabelos dela, diz sem ar, 'Te amo'. E a
andorinha, com as mãos entrando pelas calças dele, responde, num
pio de eco, 'Te amo'.
E a chuva caía forte em lufadas de vento, molhando os dois até
escorrerem um no outro.
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