domingo, 7 de setembro de 2014

Sangue Novo (1) - O limite de Dezessete



Numa pocilga, luzes foscas e fugidas tremem em placas de um neon velho e decrépito, as cores dos sinais elétricos zumbindo um grito de agonia como se espasmassem à beira da morte. Por todo lado, mais ratos, insetos e vermes do que os olhos possam contabilizar (ou canibalizar), e nem todos andando rente ao chão. A maioria rastejava, joelhos despedaçados levando consigo um rastro de sangue roto e baço. Outra maioria caminhava sobre pernas, pés e patas, rindo, apontando, em ternos agêneros de acrílico estéril. Buzinas não permitiam o silêncio, servindo como a ponta aguda do acorde da desfeita e malefício daquele lugar. Gritos acompanhavam desritmados, juntamente com choros, barulhos de sucção e o arrastar de peles. Na base desse acorde, servindo de fundo grave e dando ritmo à batida, motores de uma pneuma doente, trac-trac-trac, estalando como explosões inaudíveis mas cujas notas graves eram de uma possância tamanha que podiam impor seus rítmos aos corações de todos os ouvintes e quebrar-lhes os peitos e desfiar-lhes as carnes, os músculos e tendões. Trac-trac-trac, batia gongórico, um relógio de pandemônio, os ponteiros derretendo nas pontas, os números caindo do visor, trac-trac-trac.

'Sabia que te encontraria aqui,' falou uma figura longa e fina, um pássaro com pneumonia, 'Mas no fundo do fundo, não queria'. Tinha ombros levantados e largos, um manto feito de inúmeras camisetas remendadas, um rosto pálido pelas luzes que caíam em seu rosto pelo neon velho de doenças hospitalares. Olhava como uma sombra muito extensa, seus olhos deitados sobre um dos vermes naquele antro. As buzinas soavam ao fundo, e os motores graves continuam pulsando a fumaça para o sistema, trac-trac-trac. 'Sabia, e como eu sabia', e com a ponta do pé direito, trancado numa botina de solas grossas e enlameadas – pela sujeira úmida que fluía por todo aquele beco fundo, berço imundo –, tocou a criatura acocorada no chão que abraçava as pernas como uma semente, cabeça perdida entre os joelhos, cabelos longos e tentaculares como veias escuras sobre as pernas nuas, os pés nus, a pele crua, 'Mas não queria'.

Chutou a criatura. Nenhuma resposta. 'Aquietaste finalmente ao útero estéril em que te encerras?'. Novo chute, mais forte, nas mãos, nos cabelos, a bota suja mais suja ficava ao encontrar-se com os cabelos puídos do verme, do rato. O pássaro esqueletal sibilou, o ar passando através de seu peito, escapando agudo pelas frestas das costelas. Sem meios-termos, com uma voz desafetada, um tanto distante e meio desinteressada, disse, 'Já te divertiste o suficiente. Levanta'.

A figura catatônica tremeu. Um tique nervoso, o contra-tempo da batida de um coração, como se uma corrente de cinco mil amperes alternados corresse através de suas tripas. Lentamente, cada junta rangendo, ranhento, ergueu o ninho de arame de fios emaranhados da sua cabeça, deixando surgir seu rosto antes embainhado na bacia dos joelhos. Despontando do rosto terminalmente flácido de carnes soltas, olhos empoçados fitaram (em desafio, chacota, jocosidade?) a silhueta acorcovada do pássaro de ossos. Nenhuma resposta. Silêncio. Uma linha torta fincou um sorriso feio em seu rosto. 'Levanta', diz o pássaro.

'Levanta?', diz numa irônica pergunta o verme com sua não voz de unhas arranhantes. 'Sim', o pássaro. O verme, 'Não sinto o meu coração'. O pássaro, 'Se não sente, não precisa dele'. O verme funga e refunga, sardônico, 'Perdeu a noção inteira de toda sanidade, de tudo que é sanitário, afastou-se de toda medicina. Não mais distingue vida de morte?'. Um carro se choca contra um orfanato ao longe, crianças carbonizadas com seus ossos em chamas gritam e mordem as chapas de metal do veículo. Um indivíduo roliço tenta apagar o fogo com vinho. Uma apocrifia de barulhos horrendos.

'A distinção entre escuro e claro é apenas uma ilusão – ambos dormem na mesma cama', responde finalmente o pássaro, depois que sua voz pôde superar os gritos ao fundo. O verme ri, arqueando os braços como se fosse um boneco fantoche,

'Não há mais notas, a música agora travou num revertério – e eu sou o refluxo da azia de tudo', e o verme estendeu os braços, como se envolvesse todo o ambiente mórbido em que emplastrava seu corpo, colado contra a parede, o chão, a rua, o chorume, 'Tudo, sou o esgoto de tudo'. O pássaro, impassível, 'Se assim é a música que te encanta, então canta. És o que fores'. Fez uma pausa e, frio, continuou, 'Levanta'.

O verme, seus olhos em piscinas de águas paradas, não se moveu, 'Tolo, que me veio até aqui, quais ideias foram pintadas na tua mente? Com qual grandeza imaginaste minha estatura, o enquadramento de minha forma, para encontrar somente esta ferradura, rasura, feia e urdida criatura?'. E abriu mais os braços, desfraldando mundos de carnes embotadas, costuradas, e amargas 'Não tenho mais asas, não tenho mais pluma ou pena, não tenho mais vôo'. O pássaro noturno de camisas remendadas chutou as costas do verme, fazendo algo tombar-lhe das espáduas. Olhou, com olhos de agulha, e sorriu, 'Ainda tens uma asa'.

'Uma asa, que bem faz uma asa? Uma nota? Um nome? Um sonho? Um pulso?', falou descrédulo e desditoso o verme. Impassível, o pássaro, 'Ainda tens uma asa'. O verme soltou um ínfimo de esgar, seu rosto retornando para a baía de seus joelhos, 'Uma asa, que adianta? É nada, uma asa é nada', com o rosto perdido na escuridão, 'Sou o remix de um desespero'.

O pássaro ergueu o punho – uma corrente fosca transpareceu sem brilho nas luzes doentias de neon. 'Existir é um remix eterno. Todo ponto é um recomeço, todo fim um recontexto'. A corrente grossa ia de si para o pulso do verme, invisível mas, ainda sim, presente, existente. 'A única constância que poderíamos constar é a da mudança – mesmo a morte depende de um referencial e, como certeza, não é a das melhores'. Ao longe, uma guitarra distorcida parecia ganhar fôlego, rasgando através das buzinas dos carros. Um baixo elétrico pisava acima do motor, trac-trac, do motor relógio que vazia a fumaça rodar no sistema, trac-ck. O verme reergueu seu rosto das águas de seus joelhos, olhos como um cemitério num manguezal.

O pássaro fitava o verme com a seriedade de um disco de vinil. 'Dezesseis vezes vim a ti, e agora venho mais outra vez, procurando que respondas, tua resposta estando agora no limite de dezessete'. Os olhos se chocavam como mercúrio sólido, as correntes dos dois tilintavam. O mundo segurou a respiração, 'Tua resposta?'.

O verme, um sorriso. Um acorde distorcido de guitarra assomou-se mais alto que todo o desatino. O chão tremeu, os ventos uivaram como um alcatéia lunar. O pássaro noturno alcançou um fósforo já usado, já gasto, inútil e o colocou no buraco da fechadura das correntes, das algemas. Imediatamente, o ferro acendeu em chamas, e as chamas dançaram até o verme, tomando-o por completo, cada milímetro de seu vazio. E logo era somente pele carburada, osso acarvoado e, em menos do que um átimo, cinzas. Mas o fogo, infinito, o fogo não termina. Destruiu tanto quanto recriou. Primeiro a gosma, depois os pés ossudos, depois o músculo, depois a voz. Uma pomba de uma asa só, piando mais alto que a lua, em fogo, flama. Tudo em chamas, em chamas, chamas.


Fênix.

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