sábado, 20 de setembro de 2014

Animalia (1) - As ruas


Em Animalia, é muito fácil se perder por entre as ruas pequenas e vielas escuras, sendo preciso se espremer muitas vezes para poder caber numa passagem mais estreita. Às vezes, o espaço é tão pequeno entre a parede de um prédio e a lateral de uma casa de show que é possível sentir no corpo o tremular da música. Apesar do silêncio das altas horas da noite, em todo canto é capaz de se ouvir o murmúrio das batidas graves de um ritmo dançante. De cada buraco, de cada toca, cada bicho e criatura sai à noite para uivar. Conquistar a solidão da noite com seus muitos corpos e muitas cores, como caça e caçadores, a presa sendo tanto vítima quanto algoz. A atmosfera é densa de expectativa, e por todo canto se é possível enxergar semblantes decididos e olhares transbordando de desejo.

Num canto, uma matilha de cães vestia jaquetas escuras e corria os olhos irrequietos para lá e para cá. Cabelos aprumados, mãos nos bolsos, se esforçavam meticulosamente para transmitir um ar de desleixo que só é possível de se alcançar após diversas horas perdidas em frente a um espelho. Em outro lugar, um bando de gatos se esgueirava aos saltos, todos com roupas coladas ao corpo, calças longas, camisetas longas, ambas listradas. Cada passo que davam com suas patas desenhava curvas elegantes no ar. Conforme seguiam em frente, os gatos cruzaram olhares com os cães. Pararam estacados, apertando os olhos, dilatando as pupilas e sibilando. Os dois grupos mantiveram distância, os corações se espremeram entre os dedos. Os gatos ondulavam os ombros, hipnóticos. Os cães expandiam o peito e destacavam pescoços e mandíbulas.

Havia uma nota oculta de desafio entre os dois grupos, uma afronta inaudita, implícita. Uma cadela ousou primeiro, um passo à frente, coxas desnudas para o vento frio da noite. A maioria dos gatos recuou, mas um resolveu não arredar. Teimou e, duas vezes mais ousado, com dois passos se aproximou. Um sorriso nos dentes adicionava gosto ao seu ato, um tempero levemente ácido de impertinência. A cadela baixou suavemente os olhos, como que incrédula, quedou um tanto o quadril, despontou a lateral do pescoço e levou uma mão à cintura. Então, abriu um sorriso, bem aberto, bem largo, de uma desfaçatez quase que obscena. O jovem gato enrubesceu, suas coxas vacilaram e ele sentiu o peito comprimir, palpitar.

Mas antes que fraquejasse completamente frente à postura da cadela, uma gata de seu bando veio ao seu auxílio e firmou-se ao seu lado. Pequena e perigosamente esbelta, roçou-se aérea em suas costas num abraço deslizante. as pontas dos dedos segurando em sua cintura e os lábios finos sussurrando em seus ouvidos. O gato fechou os olhos e miou, trêmulo por um momento, hesitante. A cadela lá no outro canto ria, projetando ainda mais seu quadril largo e parecendo estender sua presença por toda a rua. A gata suavemente se interpôs, fechando olhares com a cadela e, cinco vezes decidida, caminhou na direção dela. Pé ante pé, a cauda balançando, a cabeça baixa, o olhar fixo, o sorriso frio de dentes finos, aproximou-se impassível, decidida.

A cadela pensou em recuar, até mesmo levando um pé atrás. Mesmo assim, fechou os punhos e manteve-se firme. O resto dos cães latia, uma metade era latidos de incentivo, outra metade era latidos de escárnio. A gata chegava perto, cada vez mais perto, até seus cabelos longos pretos e azuis já fazerem cócegas no focinho da cadela. Agora, ambas se olhavam, imóveis, os corpos oscilando no ritmo de suas respirações. A cadela estava tensa, os lábios levemente retesados num rosnar discreto. A gata, calculada e fria, dançava no canto dos olhos da cadela, quase escapando de seu campo de visão. De súbito, aproximou o lábio fino contra a bochecha da cadela, roçando-lhe suavemente e com a ponta de seus dentes finos arranhando-lhe a pele.

'Rosnas, por que rosnas?', disse num tempo quebrado, a ponta de sua língua áspera tocando o rosto da cadela. Mas ela não soube responder, pois a voz não encontrou ar para ser dita. O peito da cadela se expandia em saltos, o coração trepidava tanto que suas batidas podiam ser ouvidas facilmente pela gata. 'Treme tanto para quem tanto fez tremer, das patas à cauda, do peito ao quadril', disse a gata enquanto deitava a boca no pescoço da cadela, o peito no peito da cadela, as coxas nas coxas da cadela. 'Por que tremes tanto, tu que antes foste tão decidida e forte e alta e possante?'.

Com uma voz orgulhosa apesar de tremida, respondeu a cadela: 'Não sou fria como um gato, distante como um gato ou sádica como um gato. Minhas emoções eu pisco na obviedade de meu rosnado e nos gestos de meu grito. Eu tremo como um cão e meu coração bate forte em meu peito como convém a um cão, sem disfarces ou dissimulações. Se tremo agora é porque meu coração quer correr pelo meu corpo, e a sensação é tão forte que nem me cabe nas pernas, vês? Tremo porque sinto e emociono, coisas que uma gata fria assim jamais há de saber!'.

A gata sorriu, primeiro num canto da cadela, depois no outro canto. Suas mãos se cruzaram nas costas dela e seus olhos, levantados, se afundaram na escuridão da noite dentro dos olhos da cadela. 'Como podes dizer eu ser assim fria, assim distante, dissimulante e criminosa? Não me vês tremer, amiga? Não me vês tremer, amante?', e a gata arranhou as costas da cadela e aproximou mais as coxas das dela, colando-se nela. 'Vês, cadela? O quanto tremo por ti? Aqui, bem aqui', e fechou as coxas nas dela, 'Vês-me tremer?'. Sem mais aguentar-se, a cadela lambeu a boca da gata. A matilha de cães uivou, o bando de gatos miou. Logo as formas de todos se mesclariam nas sombras.


Não longe dali, as caixas de som cantavam batidas graves pela noite, dentro de uma casa de show. Dela, um corvo, um cervo e um coelho se aproximavam a passos rápidos...


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