Em Animalia, é
muito fácil se perder por entre as ruas pequenas e vielas
escuras, sendo preciso se espremer muitas vezes para poder caber numa
passagem mais estreita. Às vezes, o espaço é tão
pequeno entre a parede de um prédio e a lateral de uma casa de
show que é possível sentir no corpo o tremular da
música. Apesar do silêncio das altas horas da noite, em
todo canto é capaz de se ouvir o murmúrio das batidas
graves de um ritmo dançante. De cada buraco, de cada toca,
cada bicho e criatura sai à noite para uivar. Conquistar a
solidão da noite com seus muitos corpos e muitas cores, como
caça e caçadores, a presa sendo tanto vítima
quanto algoz. A atmosfera é densa de expectativa, e por todo
canto se é possível enxergar semblantes decididos e
olhares transbordando de desejo.
Num canto, uma matilha
de cães vestia jaquetas escuras e corria os olhos irrequietos
para lá e para cá. Cabelos aprumados, mãos nos
bolsos, se esforçavam meticulosamente para transmitir um ar de
desleixo que só é possível de se alcançar
após diversas horas perdidas em frente a um espelho. Em outro
lugar, um bando de gatos se esgueirava aos saltos, todos com roupas
coladas ao corpo, calças longas, camisetas longas, ambas
listradas. Cada passo que davam com suas patas desenhava curvas
elegantes no ar. Conforme seguiam em frente, os gatos cruzaram
olhares com os cães. Pararam estacados, apertando os olhos,
dilatando as pupilas e sibilando. Os dois grupos mantiveram
distância, os corações se espremeram entre os
dedos. Os gatos ondulavam os ombros, hipnóticos. Os cães
expandiam o peito e destacavam pescoços e mandíbulas.
Havia uma nota oculta
de desafio entre os dois grupos, uma afronta inaudita, implícita.
Uma cadela ousou primeiro, um passo à frente, coxas desnudas
para o vento frio da noite. A maioria dos gatos recuou, mas um
resolveu não arredar. Teimou e, duas vezes mais ousado, com
dois passos se aproximou. Um sorriso nos dentes adicionava gosto ao
seu ato, um tempero levemente ácido de impertinência. A
cadela baixou suavemente os olhos, como que incrédula, quedou
um tanto o quadril, despontou a lateral do pescoço e levou uma
mão à cintura. Então, abriu um sorriso, bem
aberto, bem largo, de uma desfaçatez quase que obscena. O
jovem gato enrubesceu, suas coxas vacilaram e ele sentiu o peito
comprimir, palpitar.
Mas antes que
fraquejasse completamente frente à postura da cadela, uma gata
de seu bando veio ao seu auxílio e firmou-se ao seu lado.
Pequena e perigosamente esbelta, roçou-se aérea em suas
costas num abraço deslizante. as pontas dos dedos segurando em
sua cintura e os lábios finos sussurrando em seus ouvidos. O
gato fechou os olhos e miou, trêmulo por um momento, hesitante.
A cadela lá no outro canto ria, projetando ainda mais seu
quadril largo e parecendo estender sua presença por toda a
rua. A gata suavemente se interpôs, fechando olhares com a
cadela e, cinco vezes decidida, caminhou na direção
dela. Pé ante pé, a cauda balançando, a cabeça
baixa, o olhar fixo, o sorriso frio de dentes finos, aproximou-se
impassível, decidida.
A cadela pensou em
recuar, até mesmo levando um pé atrás. Mesmo
assim, fechou os punhos e manteve-se firme. O resto dos cães
latia, uma metade era latidos de incentivo, outra metade era latidos
de escárnio. A gata chegava perto, cada vez mais perto, até
seus cabelos longos pretos e azuis já fazerem cócegas
no focinho da cadela. Agora, ambas se olhavam, imóveis, os
corpos oscilando no ritmo de suas respirações. A cadela
estava tensa, os lábios levemente retesados num rosnar
discreto. A gata, calculada e fria, dançava no canto dos olhos
da cadela, quase escapando de seu campo de visão. De súbito,
aproximou o lábio fino contra a bochecha da cadela,
roçando-lhe suavemente e com a ponta de seus dentes finos
arranhando-lhe a pele.
'Rosnas, por que
rosnas?', disse num tempo quebrado, a ponta de sua língua
áspera tocando o rosto da cadela. Mas ela não soube
responder, pois a voz não encontrou ar para ser dita. O peito
da cadela se expandia em saltos, o coração trepidava
tanto que suas batidas podiam ser ouvidas facilmente pela gata.
'Treme tanto para quem tanto fez tremer, das patas à cauda, do
peito ao quadril', disse a gata enquanto deitava a boca no pescoço
da cadela, o peito no peito da cadela, as coxas nas coxas da cadela.
'Por que tremes tanto, tu que antes foste tão decidida e forte
e alta e possante?'.
Com uma voz orgulhosa
apesar de tremida, respondeu a cadela: 'Não sou fria como um
gato, distante como um gato ou sádica como um gato. Minhas
emoções eu pisco na obviedade de meu rosnado e nos
gestos de meu grito. Eu tremo como um cão e meu coração
bate forte em meu peito como convém a um cão, sem
disfarces ou dissimulações. Se tremo agora é
porque meu coração quer correr pelo meu corpo, e a
sensação é tão forte que nem me cabe nas
pernas, vês? Tremo porque sinto e emociono, coisas que uma gata
fria assim jamais há de saber!'.
A gata sorriu, primeiro
num canto da cadela, depois no outro canto. Suas mãos se
cruzaram nas costas dela e seus olhos, levantados, se afundaram na
escuridão da noite dentro dos olhos da cadela. 'Como podes
dizer eu ser assim fria, assim distante, dissimulante e criminosa?
Não me vês tremer, amiga? Não me vês
tremer, amante?', e a gata arranhou as costas da cadela e aproximou
mais as coxas das dela, colando-se nela. 'Vês, cadela? O quanto
tremo por ti? Aqui, bem aqui', e fechou as coxas nas dela, 'Vês-me tremer?'. Sem mais aguentar-se, a cadela lambeu a boca da gata.
A matilha de cães uivou, o bando de gatos miou. Logo as formas
de todos se mesclariam nas sombras.
Não longe dali,
as caixas de som cantavam batidas graves pela noite, dentro de uma
casa de show. Dela, um corvo, um cervo e um coelho se aproximavam a
passos rápidos...
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