quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Lobas de Sangue (2) - Caolha




A mulher reclinava o corpo em direção ao regato. As águas calmíssimas permitiam-na ver refletida, em todos os detalhes que quisesse, a imagem de seu rosto. Sim, podia ver cada traço, cada uma de suas inúmeras marcas: as inúmeras rugas que desenhavam seu rosto jovem, ganhadas através de uma procissão ininterrupta de dores e sofrimentos; as muitas falhas e amassados, provenientes de golpes duros que lhe deformaram os ossos; as várias cicatrizes finas, últimos resquícios do ferro das lâminas que riscaram-lhe. E, coroando toda essa pintura facial grotesca, podia ver aquela fenda horrível, aquele buraco vazante e sangrado onde um dia ficara seu outro olho, agora sempre doendo, sempre doente, sempre pulsando.


Subitamente, despiu-se. Seus trapos de roupa tombaram sobre suas pernas, à margem do regato. Agora, seus olhos percorriam o resto de seu corpo, sem pressa. Via-se com um abandono gélido, arrepiante. Conforme corria os olhos sobre si, seu rosto esboçava a mesma resolução fria de um artesão analisando, metodicamente, a superfície de um vaso de cerâmica. Impassível, distante, e ao mesmo tempo cuidadosa e desapaixonada.

'Horrível', concluiu, no silêncio de seus pensamentos, após depois de longa e demorada análise. 'Eu sou horrível'. Não que isso fosse uma novidade. Ela sempre foi feia, mesmo antes de ter seu corpo transformado nesse refluxo mastigado de couro, pele e sangue. Sempre feia. Sempre.

Lembrava-se muito bem. Quando pequena, seu pai foi convocado para o exército e morreu em batalha, numa província distante cujo nome nunca soube dizer. Sua mãe, cada vez mais doente e tossindo mais sangue, entregou a filha aos cuidados dos tios. E apesar de toda a aparente boa vontade inicial, desde sempre eles deixaram bem claro que só aceitavam em sua casa por razão de caridade e respeito ao último desejo de sua mãe. Aturavam sua existência como aturariam a de um aleijado ou anão, uma pessoa inútil para eles e que em nada poderia ajudar. Um problema.

Pois é assim que ela era vista, no final das contas, como apenas mais um problema, apenas mais uma boca para se alimentar. Os tios já tinham três filhos para cuidar, e estes já supriam toda a ajuda de que precisavam para cuidar da horta e da casa. A Caolha era apenas um treco incômodo, uma craca indesejada da qual eles não podiam se desvencilhar. No fim, a única esperança deles era casá-la o mais rápido possível para se verem livres delas – isso faria com que cumprissem o desejo da mãe e tudo terminaria bem.

Infelizmente, à contra feito de seus planos, a menina era feia. Seu rosto era bizarro, assimétrico, com uma metade estando torta em relação à outra. Pêlos inconvenientes brotavam em suas bochechas, juntamente com uma verruga próxima ao queixo. Descendo o olhar, via-se que seu pescoço era curto demais, seus ombros curvados, sua postura deselegante e bicuda. Até sua pele era ruim, pois acusava a sua vida subalterna de camponesa. Ela tinha um bronzeado escurecido ocasionado pelo trabalho no campo, ao invés da brancura que convinha a uma dama de respeito. E, adicionando mais revezes à sua situação, a menina ainda não tinha qualquer adestramento. Por causa da doença da mãe, nunca aprendera as boas prendagens que uma moça tinha que aprender – cozinhar, cuidar de uma casa, costurar. Ela era de toda um lixo – do corpo até a cabeça.

Quando, pasmem, um homem finalmente apareceu interessado em comprá-la por uma bagatela de alguma ovelhas e cabras, os tios não pensaram duas vezes e fecharam o acordo. Era a melhor oportunidade que jamais teriam de se livrar daquela porca horrenda. Todo o processo foi escandalosamente rápido – bastou ao magistrado que assinou os papéis olhar para a Caolha que percebeu, de imediato, a pobre situação dos tios. Comovido pela feiúra da garota, percebeu que tinha que agir rápido e, dessa forma, despachou-a criteriosamente aos braços do piedoso homem que aceitou levar para sua casa tão lastimável criatura. E com isso, todos ganharam. Os tios não precisavam mais alimentar aquele peso morto de menina, o magistrado não precisava mais olhar para aquela gárgula feia, e o homem agora tinha uma mulher para cuidar de sua casa, lavar-lhe as roupas e divertir-lhe em seus momentos de folga.

Tão logo os papéis foram assinados, a menina foi jogada – quase que literalmente – sobre a carroça do seu novo marido e levada para longe de tudo que um dia conheceu. Por um momento, correu sua mente que aquilo poderia ser uma mudança para melhor, pois não mais teria que ser vítima das terríveis reprimendas de seus tios. Contudo, é claro que tais suposições caíram imediatamente em terra quando percebeu qual era a visão de esposa que seu marido tinha reservada para si.

A primeira coisa que fez quando chegaram em seu casebre foi montar em cima dela, forçando a mão em sua boca para que parasse de choramingar. Depois, apontou-a em direção aos seus deveres enquanto esposa e foi trabalhar no campo. Quando retornou, encontrou sua casa dessarumada, as roupas sujas e uma comida insossa e queimada. Nesse dia, a Caolha recebeu seu primeiro hematoma, e não tardou muito para ter seu primeiro dente quebrado. Pois é claro, o homem sabia que tinha comprado uma esposa que não era das mais apresentáveis, mas jamais poderia esperar que, além de feia, ela ainda soubesse nada sobre ser uma mulher! Daí, sua única fonte de alívio era espairecer sua frustração em golpes e gritos contra sua terrível esposa.

Sozinha, em meio a estranhos, a menina só pôde aceitar sua situação. Os vizinhos faziam vista grossa das inúmeras marcas e hematomas que ela apresentava, isso quando não diretamente reprovavam-na com seus olhares julgadores. Era como se fosse culpada – por ser feia, por ser burra, por ser uma esposa ruim. Essa era sua situação, e havia nada que podia ser feito. Apenas aceitar as coisas como eram e deixar os dias transcorrerem, colecionando novas lágrimas a cada pôr do sol.

Até o dia em que, sua barriga já levemente inchada, percebeu o marido que ela estava grávida. Tomado por fúria, ele subiu nela e, enquanto a possuía, esbravejou: 'Como ousa estar grávida? Eu não tenho condições de sustentar outra boca!'. Quando cansou, deixou-a tombar no chão, encolhida, assustada. Mas sua fúria ainda não havia sido apaziguada. Tomou em mãos uma faca da cozinha e, puxando a mulher pelos cabelos, gravou a lâmina no olho da esposa. Ela gritou, esperneou, chorou, apenas para o deleite do homem enraivecido. Somente quando o sangue já escorria pelo rosto dela foi que o marido deu-se por satisfeito e se afastou. A mulher, destruída, viu-se perdendo os sentidos no assoalho frio da casa.

E daí, tudo ocorreu rápido. Ela acordou, queimando de dor. Viu aquele homem, seu marido, casualmente limpando a faca com que furara seu olho. Aproximou-se, rápida, silenciosa. Tomou a faca de suas mãos. Estocou uma, duas, três vezes. Gritos preencheram todo o quarteirão. Ela sentiu golpes, mas não sentia mais dor, nem sentia mais medo. Apenas via o mundo pintado de vermelho e fúria. Saltou, seu corpo projetado contra o homem. Nunca imaginou que o pescoço dele cederia tão facilmente quando cravou nele os seus dentes. Ele caiu. Ela pisou uma, duas, três, várias vezes, até não mais reconhecer aquele rosto sob seus pés. Vizinhos apareceram à porta. Ela os olhou. Eles gritaram, paralisados de medo. Ela correu, passou por eles. Alcançou a carroça do seu ex-esposo. Desamarrou o cavalo. Montou. Fugiu.

Não sabe por quanto tempo cavalgou, mas se lembra da patrulha indo em seu rastro. Lembra-se de flechas sendo disparadas. Lembra-se da noite se aproximando. Mas tudo corria como um borrão, como um jato de imagens que se debatiam contra seu rosto. E nisso tudo, ela fugia – de si, da sua vida horrível, de sua feiúra, de seu passado, de seu futuro, do mundo. De repente, percebeu que não mais era perseguida pela patrulha. Estava só, no meio de uma estepe, debaixo de uma noite de lua e de um céu estrelado. Seu corpo inteiro doía. Seu olho furado parecia um poço de lava, escorrendo pelo seu corpo.

Foi então que ouviu os uivos. Não tardou, e logo despontaram olhos cintilantes na escuridão. Se não estivesse tão morta, tão fraca, tão completamente esgotada, poderia sentir medo. Mas apenas ficou ali, sentada sobre o cavalo, olhando aquelas figuras se aproximando, fazendo um círculo em volta dela, observando. Uma das figuras ousou aproximar-se mais e estender-lhe a mão. Quando finalmente a sentiu tocando sua perna, foi como se toda sua jornada finalmente tivesse terminado. Sentiu como se toda a tensão, o medo, o pavor viessem cair sobre si em retrocesso e, subitamente, tudo ser aliviado. Daí, perdeu os sentidos.

Desde aquele dia, tornou-se parte das lobas de sangue. Antes mesmo de ouvirem a sua história as lobas já a tinham acolhida completamente. Elas cuidaram de seus ferimentos, deram abrigo aos seus medos e extirparam de dentro de si aquele parasita que crescia dentro de sua barriga. Além disso tudo, de terem dado a ela um lugar para pertencer e uma nova vida para viver, elas despertaram em si sentimentos de camaradagem os quais imaginou que jamais iria novamente sentir.

Mas já era muito tarde, muito longe. Ela já havia sido corrompida demais, sujada demais para poder voltar a sorrir. Já havia nela uma mancha de dor que não mais poderia ser apagada. Toda sua história foi marcada por violência. E sempre que essa violência aparecia, era feita como se fosse justificada, legítima, como se ela merecesse cada gota de punição que era pingada sobre ela. Por ela ser feia. Por ela ser fêmea. Sim, já era tarde demais para ela poder realmente entender as sinceridades de um sorriso, e as alegrias de um dia ensolarado. Tudo que restava nela era essa coisa, esse caroço em seu âmago, essa quantidade imensa de...ódio.

Isso mesmo, pura e simplesmente ódio. Todo seu ser, toda sua natureza, era ódio. E ela odiava tudo, todos. Odiava crianças e suas vozes esganiçadas e temperamentos tolos. Odiava os homens e toda a sociedade que girava em torno deles. Odiava as mulheres e toda a causalidade de sua situação triste. Odiava os excluídos e todo o manto de insignificância que lhes fora legado. Odiava os animais e sua doce ignorância. Odiava as plantas e a passividade de sua existência. Odiava o céu por ser tão grande, a terra por ser tão grossa. Odiava sua mãe por ter sido doente, seu pai por ter sumido na guerra, seus tios, esposo, o mundo, tudo. E até mesmo odiava as lobas, por estarem tão próximas e tão longe de si, de seus ferimentos, de sua dor, de seu ódio.

Mas, acima de tudo, odiava a si mesma, seu corpo, suas limitações, sua feiúra, toda a monstruosidade que a conformava. Ela era imperdoavelmente horrível. No corpo e na alma.

Enfim, a Caolha suspirou. Estava perdida em pensamentos, fitando o vazio das águas já há muitos minutos. Ao longe, era possível de se ouvir a algazarra das outras lobas enquanto se preparavam para fazer o desjejum. O sol ainda começava seu trajeto do dia, seus raios luminosos ainda bastante suaves para poderem aquecer a pele daqueles que habitavam as estepes geladas. Mas a Caolha não se importava com o frio. Ela o sentia rastejar feito um verme em sua pele, agulhando-a com seu ferrão de gelo. Mas não tinha problema, ela aceitava a sua dor. Da mesma forma como aceitava todo o resto, toda a sua situação. Era só o que podia fazer.

Novamente, seus olhos voltaram a fitar seu reflexo nas águas. Permaneceram sobre seu rosto, seu feio e deformado rosto. Com as pontas dos dedos, tocou a sua pele ferida, como que para se certificar de que algo tão monstruoso poderia existir. Cada pele, cada rasgo, cada mancha, era tudo real, palpável. Seu olho bom fitou então seu olho furado, esburacado. 'Horrível', deixou escapar dos lábios, com a voz cuspindo em desgosto.

Quando então ela sentiu dedos correndo gentilmente pelas costas de seu pescoço, seguido por uma voz fina e reta como uma espada. 'Não tenha tanta dureza para consigo', disse a figura aproximando-se e sentando-se ao seu lado. A Caolha esboçou um sorriso de uma forma que só a Alfa conseguia fazer brotar em seu rosto.

'Imaginei que você estaria aqui. E minha imaginação mostrou-se correta', a Alfa continuou a falar em sua maneira controlada e serena. 'Não tem fome você?'.

A Caolha balançou a cabeça, 'Desculpe. Eu apenas acordei cedo e me retirei para meditar'.

'Entendo', a Alfa olhou para o corpo desnudo da colega, 'O tempo está gelado, e você está ferida. Deve proteger-se'. Maternalmente, tomou em mãos as roupas caídas da Caolha e a vestiu. Depois, fitando-a com candura e carinho, disse, 'Se terminado o seu treino, venha conosco comer. Sua presença é sempre bem vinda'.


A Caolha não encontrou palavras para responder. Apenas estendeu-se em seu rosto um sorriso bobo e, prontamente, pôs-se de pé e seguiu a Alfa de volta para o acampamento.

(A imagem é uma maquiagem de halloween. Achei-a interessante, mas a caolha do conto é bastante diferente. Contudo, essa é uma boa imagem de qualquer forma, =3)

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