A mulher
reclinava o corpo em direção ao regato. As águas calmíssimas
permitiam-na ver refletida, em todos os detalhes que quisesse, a
imagem de seu rosto. Sim, podia ver cada traço, cada uma de suas
inúmeras marcas: as inúmeras rugas que desenhavam seu rosto jovem,
ganhadas através de uma procissão ininterrupta de dores e
sofrimentos; as muitas falhas e amassados, provenientes de golpes
duros que lhe deformaram os ossos; as várias cicatrizes finas,
últimos resquícios do ferro das lâminas que riscaram-lhe. E,
coroando toda essa pintura facial grotesca, podia ver aquela fenda
horrível, aquele buraco vazante e sangrado onde um dia ficara seu
outro olho, agora sempre doendo, sempre doente, sempre pulsando.
Subitamente,
despiu-se. Seus trapos de roupa tombaram sobre suas pernas, à margem
do regato. Agora, seus olhos percorriam o resto de seu corpo, sem
pressa. Via-se com um abandono gélido, arrepiante. Conforme corria
os olhos sobre si, seu rosto esboçava a mesma resolução fria de um
artesão analisando, metodicamente, a superfície de um vaso de
cerâmica. Impassível, distante, e ao mesmo tempo cuidadosa e
desapaixonada.
'Horrível',
concluiu, no silêncio de seus pensamentos, após depois de longa e
demorada análise. 'Eu sou horrível'. Não que isso fosse uma
novidade. Ela sempre foi feia, mesmo antes de ter seu corpo
transformado nesse refluxo mastigado de couro, pele e sangue. Sempre
feia. Sempre.
Lembrava-se
muito bem. Quando pequena, seu pai foi convocado para o exército e
morreu em batalha, numa província distante cujo nome nunca soube
dizer. Sua mãe, cada vez mais doente e tossindo mais sangue,
entregou a filha aos cuidados dos tios. E apesar de toda a aparente
boa vontade inicial, desde sempre eles deixaram bem claro que só
aceitavam em sua casa por razão de caridade e respeito ao último
desejo de sua mãe. Aturavam sua existência como aturariam a de um
aleijado ou anão, uma pessoa inútil para eles e que em nada poderia
ajudar. Um problema.
Pois é
assim que ela era vista, no final das contas, como apenas mais um
problema, apenas mais uma boca para se alimentar. Os tios já tinham
três filhos para cuidar, e estes já supriam toda a ajuda de que
precisavam para cuidar da horta e da casa. A Caolha era apenas um
treco incômodo, uma craca indesejada da qual eles não podiam se
desvencilhar. No fim, a única esperança deles era casá-la o mais
rápido possível para se verem livres delas – isso faria com que
cumprissem o desejo da mãe e tudo terminaria bem.
Infelizmente,
à contra feito de seus planos, a menina era feia. Seu rosto era
bizarro, assimétrico, com uma metade estando torta em relação à
outra. Pêlos inconvenientes brotavam em suas bochechas, juntamente
com uma verruga próxima ao queixo. Descendo o olhar, via-se que seu
pescoço era curto demais, seus ombros curvados, sua postura
deselegante e bicuda. Até sua pele era ruim, pois acusava a sua vida
subalterna de camponesa. Ela tinha um bronzeado escurecido ocasionado
pelo trabalho no campo, ao invés da brancura que convinha a uma dama
de respeito. E, adicionando mais revezes à sua situação, a menina
ainda não tinha qualquer adestramento. Por causa da doença da mãe,
nunca aprendera as boas prendagens que uma moça tinha que aprender –
cozinhar, cuidar de uma casa, costurar. Ela era de toda um lixo –
do corpo até a cabeça.
Quando,
pasmem, um homem finalmente apareceu interessado em comprá-la por
uma bagatela de alguma ovelhas e cabras, os tios não pensaram duas
vezes e fecharam o acordo. Era a melhor oportunidade que jamais
teriam de se livrar daquela porca horrenda. Todo o processo foi
escandalosamente rápido – bastou ao magistrado que assinou os
papéis olhar para a Caolha que percebeu, de imediato, a pobre
situação dos tios. Comovido pela feiúra da garota, percebeu que
tinha que agir rápido e, dessa forma, despachou-a criteriosamente
aos braços do piedoso homem que aceitou levar para sua casa tão
lastimável criatura. E com isso, todos ganharam. Os tios não
precisavam mais alimentar aquele peso morto de menina, o magistrado
não precisava mais olhar para aquela gárgula feia, e o homem agora
tinha uma mulher para cuidar de sua casa, lavar-lhe as roupas e
divertir-lhe em seus momentos de folga.
Tão logo
os papéis foram assinados, a menina foi jogada – quase que
literalmente – sobre a carroça do seu novo marido e levada para
longe de tudo que um dia conheceu. Por um momento, correu sua mente
que aquilo poderia ser uma mudança para melhor, pois não mais teria
que ser vítima das terríveis reprimendas de seus tios. Contudo, é
claro que tais suposições caíram imediatamente em terra quando
percebeu qual era a visão de esposa que seu marido tinha reservada
para si.
A
primeira coisa que fez quando chegaram em seu casebre foi montar em
cima dela, forçando a mão em sua boca para que parasse de
choramingar. Depois, apontou-a em direção aos seus deveres enquanto
esposa e foi trabalhar no campo. Quando retornou, encontrou sua casa
dessarumada, as roupas sujas e uma comida insossa e queimada. Nesse
dia, a Caolha recebeu seu primeiro hematoma, e não tardou muito para
ter seu primeiro dente quebrado. Pois é claro, o homem sabia que
tinha comprado uma esposa que não era das mais apresentáveis, mas
jamais poderia esperar que, além de feia, ela ainda soubesse nada
sobre ser uma mulher! Daí, sua única fonte de alívio era
espairecer sua frustração em golpes e gritos contra sua terrível
esposa.
Sozinha,
em meio a estranhos, a menina só pôde aceitar sua situação. Os
vizinhos faziam vista grossa das inúmeras marcas e hematomas que ela
apresentava, isso quando não diretamente reprovavam-na com seus
olhares julgadores. Era como se fosse culpada – por ser feia, por
ser burra, por ser uma esposa ruim. Essa era sua situação, e havia
nada que podia ser feito. Apenas aceitar as coisas como eram e deixar
os dias transcorrerem, colecionando novas lágrimas a cada pôr do
sol.
Até o
dia em que, sua barriga já levemente inchada, percebeu o marido que
ela estava grávida. Tomado por fúria, ele subiu nela e, enquanto a
possuía, esbravejou: 'Como ousa estar grávida? Eu não tenho
condições de sustentar outra boca!'. Quando cansou, deixou-a tombar
no chão, encolhida, assustada. Mas sua fúria ainda não havia sido
apaziguada. Tomou em mãos uma faca da cozinha e, puxando a mulher
pelos cabelos, gravou a lâmina no olho da esposa. Ela gritou,
esperneou, chorou, apenas para o deleite do homem enraivecido.
Somente quando o sangue já escorria pelo rosto dela foi que o marido
deu-se por satisfeito e se afastou. A mulher, destruída, viu-se
perdendo os sentidos no assoalho frio da casa.
E daí,
tudo ocorreu rápido. Ela acordou, queimando de dor. Viu aquele
homem, seu marido, casualmente limpando a faca com que furara seu
olho. Aproximou-se, rápida, silenciosa. Tomou a faca de suas mãos.
Estocou uma, duas, três vezes. Gritos preencheram todo o quarteirão.
Ela sentiu golpes, mas não sentia mais dor, nem sentia mais medo.
Apenas via o mundo pintado de vermelho e fúria. Saltou, seu corpo
projetado contra o homem. Nunca imaginou que o pescoço dele cederia
tão facilmente quando cravou nele os seus dentes. Ele caiu. Ela
pisou uma, duas, três, várias vezes, até não mais reconhecer
aquele rosto sob seus pés. Vizinhos apareceram à porta. Ela os
olhou. Eles gritaram, paralisados de medo. Ela correu, passou por
eles. Alcançou a carroça do seu ex-esposo. Desamarrou o cavalo.
Montou. Fugiu.
Não sabe
por quanto tempo cavalgou, mas se lembra da patrulha indo em seu
rastro. Lembra-se de flechas sendo disparadas. Lembra-se da noite se
aproximando. Mas tudo corria como um borrão, como um jato de imagens
que se debatiam contra seu rosto. E nisso tudo, ela fugia – de si,
da sua vida horrível, de sua feiúra, de seu passado, de seu futuro,
do mundo. De repente, percebeu que não mais era perseguida pela
patrulha. Estava só, no meio de uma estepe, debaixo de uma noite de
lua e de um céu estrelado. Seu corpo inteiro doía. Seu olho furado
parecia um poço de lava, escorrendo pelo seu corpo.
Foi então
que ouviu os uivos. Não tardou, e logo despontaram olhos cintilantes
na escuridão. Se não estivesse tão morta, tão fraca, tão
completamente esgotada, poderia sentir medo. Mas apenas ficou ali,
sentada sobre o cavalo, olhando aquelas figuras se aproximando,
fazendo um círculo em volta dela, observando. Uma das figuras ousou
aproximar-se mais e estender-lhe a mão. Quando finalmente a sentiu
tocando sua perna, foi como se toda sua jornada finalmente tivesse
terminado. Sentiu como se toda a tensão, o medo, o pavor viessem
cair sobre si em retrocesso e, subitamente, tudo ser aliviado. Daí,
perdeu os sentidos.
Desde
aquele dia, tornou-se parte das lobas de sangue. Antes mesmo de
ouvirem a sua história as lobas já a tinham acolhida completamente.
Elas cuidaram de seus ferimentos, deram abrigo aos seus medos e
extirparam de dentro de si aquele parasita que crescia dentro de sua
barriga. Além disso tudo, de terem dado a ela um lugar para
pertencer e uma nova vida para viver, elas despertaram em si
sentimentos de camaradagem os quais imaginou que jamais iria
novamente sentir.
Mas já
era muito tarde, muito longe. Ela já havia sido corrompida demais,
sujada demais para poder voltar a sorrir. Já havia nela uma mancha
de dor que não mais poderia ser apagada. Toda sua história foi
marcada por violência. E sempre que essa violência aparecia, era
feita como se fosse justificada, legítima, como se ela merecesse
cada gota de punição que era pingada sobre ela. Por ela ser feia.
Por ela ser fêmea. Sim, já era tarde demais para ela poder
realmente entender as sinceridades de um sorriso, e as alegrias de um
dia ensolarado. Tudo que restava nela era essa coisa, esse caroço em
seu âmago, essa quantidade imensa de...ódio.
Isso
mesmo, pura e simplesmente ódio. Todo seu ser, toda sua natureza,
era ódio. E ela odiava tudo, todos. Odiava crianças e suas vozes
esganiçadas e temperamentos tolos. Odiava os homens e toda a
sociedade que girava em torno deles. Odiava as mulheres e toda a
causalidade de sua situação triste. Odiava os excluídos e todo o
manto de insignificância que lhes fora legado. Odiava os animais e
sua doce ignorância. Odiava as plantas e a passividade de sua
existência. Odiava o céu por ser tão grande, a terra por ser tão
grossa. Odiava sua mãe por ter sido doente, seu pai por ter sumido
na guerra, seus tios, esposo, o mundo, tudo. E até mesmo odiava as
lobas, por estarem tão próximas e tão longe de si, de seus
ferimentos, de sua dor, de seu ódio.
Mas,
acima de tudo, odiava a si mesma, seu corpo, suas limitações, sua
feiúra, toda a monstruosidade que a conformava. Ela era
imperdoavelmente horrível. No corpo e na alma.
Enfim, a
Caolha suspirou. Estava perdida em pensamentos, fitando o vazio das
águas já há muitos minutos. Ao longe, era possível de se ouvir a
algazarra das outras lobas enquanto se preparavam para fazer o
desjejum. O sol ainda começava seu trajeto do dia, seus raios
luminosos ainda bastante suaves para poderem aquecer a pele daqueles
que habitavam as estepes geladas. Mas a Caolha não se importava com
o frio. Ela o sentia rastejar feito um verme em sua pele, agulhando-a
com seu ferrão de gelo. Mas não tinha problema, ela aceitava a sua
dor. Da mesma forma como aceitava todo o resto, toda a sua situação.
Era só o que podia fazer.
Novamente,
seus olhos voltaram a fitar seu reflexo nas águas. Permaneceram
sobre seu rosto, seu feio e deformado rosto. Com as pontas dos dedos,
tocou a sua pele ferida, como que para se certificar de que algo tão
monstruoso poderia existir. Cada pele, cada rasgo, cada mancha, era
tudo real, palpável. Seu olho bom fitou então seu olho furado,
esburacado. 'Horrível', deixou escapar dos lábios, com a voz
cuspindo em desgosto.
Quando
então ela sentiu dedos correndo gentilmente pelas costas de seu
pescoço, seguido por uma voz fina e reta como uma espada. 'Não
tenha tanta dureza para consigo', disse a figura aproximando-se e
sentando-se ao seu lado. A Caolha esboçou um sorriso de uma forma
que só a Alfa conseguia fazer brotar em seu rosto.
'Imaginei
que você estaria aqui. E minha imaginação mostrou-se correta', a
Alfa continuou a falar em sua maneira controlada e serena. 'Não tem
fome você?'.
A Caolha
balançou a cabeça, 'Desculpe. Eu apenas acordei cedo e me retirei
para meditar'.
'Entendo',
a Alfa olhou para o corpo desnudo da colega, 'O tempo está gelado, e
você está ferida. Deve proteger-se'. Maternalmente, tomou em mãos
as roupas caídas da Caolha e a vestiu. Depois, fitando-a com candura
e carinho, disse, 'Se terminado o seu treino, venha conosco comer.
Sua presença é sempre bem vinda'.
A Caolha
não encontrou palavras para responder. Apenas estendeu-se em seu
rosto um sorriso bobo e, prontamente, pôs-se de pé e seguiu a Alfa
de volta para o acampamento.
(A imagem é uma maquiagem de halloween. Achei-a interessante, mas a caolha do conto é bastante diferente. Contudo, essa é uma boa imagem de qualquer forma, =3)
Imagem 1
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