sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

As lobas de sangue (1)



O homem abriu os olhos numa crispada de agonia, como se as pálpebras fossem pólvora estourando. Sua respiração estava rápida, cortada, o peito inchando e esvaziando desritmado e réptico. Sua mente borbulhava como se fervendo, num turvilhão de dor. Imagens aproximavam-se da superfície de seus pensamentos – gritos, estandartes flamulando ao vento, mais gritos, formas ambulando na noite, golpes – mas rapidamente se desfaziam conforme a bolha da imagem estourava na orla da mente, ardendo.


Buscando apaziguar o sofrimento, ele tentou levar a mão à cabeça, mas seu braço foi impedido em meio caminho. Em seu pulso, havia uma corrente prendendo seu braço a uma estaca de madeira fixa no chão. Com um movimento desesperado, o homem puxa as correntes, numa tentativa vá de libertar-se, enquanto sua mente buscava – em vão – se lembrar como foi que ele veio parar ali. Somente no terceiro puxão foi que o homem percebeu não só a dor que sentia no pulso, mas também da que envolvia o corpo inteiro: braços, pernas, costas. Resmungou, contorcendo o corpo no chão de terra e barro, frio, arenoso e urticante. E sentiu que, debaixo das mantas puídas que o cobriam superficialmente, ele estava nu. Seu corpo, nu e largado e preso.

Agora, um súbito pânico arrebatava-lhe o peito. Agoniado, virou o pescoço em todas as direções, procurando alguma explicação. Com os olhos correndo alarmados um canto a outro, foi então finalmente que ele tomou noção de tudo: As paredes de pano, armadas em traves de madeira sobre o tecido agreste da terra e da poeira. A corrente em seu braço atrelada numa estaca crua e grosseira. Ele havia sido capturado. E, pior e mais terrível ainda, havia, a poucos passos de si, uma figura que o olhava, atenta, fria e feroz.

Era uma...mulher? Não tinha certeza, como poderia ser? Aquela coisa, aquele bicho, aquele monstro? Não podia ter certeza. Mantos grossos e pesados caíam sobre toda a dimensão do corpo, tapando grande parte das peles e dificultando uma melhor inspeção. Mas debaixo daquelas roupas grossas, parecia ter as costadas curvadas e estar montada sobre as próprias pernas, dobradas em posição de cócoras. Suas mãos de unhas longas garriformes apoiavam-se no solo frio e sujo. Os seus cabelos longos, escuros e cheios de nós caíam sobre seu rosto como um mato de espinhos. E seu rosto era inteiro o retrato gargólico de uma fera, as bochechas e dentes arqueando para trás como que preparasse para rosnar, os olhos afinalados como um tigre antes do bote.

Num impulso, o homem recuou alguns passos e tateou todo o chão à volta em busca das suas armas, mas nada encontrou. Nada havia próximo de si para interpor a distância entre ele e aquela...coisa. Averiguou melhor a situação. Tentou acalmar os nervos e julgar o problema com a cabeça fria. Mesmo com um dos braços atados a uma estaca de madeira, e mesmo de corpo nu, seria capaz de deter o ataque de uma mulher – disso tinha absoluta certeza. Daí, esperou, olhos atentos na criatura, observando. Mas, além de emitir um rosnado baixo e manter uma postura bestial, a criatura fez nada.

Antes que o homem pudesse fazer uso de outra ação, um novo rosto apareceu distante através dos panos da tenda. E agora, o que seria aquilo? Era outro rosto mais fera do que humano, talvez até mesmo ainda mais monstruoso. Dispunha de inúmeras cicatrizes pela face cuja pele ferida tinha aspecto de couro. Havia uma falha em sua cabeça onde os cabelos desapareciam numa escara terrível, e um dos olhos estava vazado, sem vida.

A nova criatura lançou a visão sobre o que acontecia dentro da tenda. Deitou o olhar sobre o homem, depois para a outra fera. Com esta, trocou alguns rosnados curtos e, tão subitamente quanto aparecera, sumira. Já a fera que permaneceu na tenda ergueu-se das cócoras e, andando animalescamente sobre os pés, aproximou-se do homem.

Ele devia agir agora.

O que sucedeu foi rápido. O homem, como um raio, levantou os braços e usou de sua força e tamanho superiores para chocar-se contra a fera. Seu cotovelo direito foi contra o rosto dela, enquanto que, apoiando a mão esquerda contra o peito da fera, usou as coxas para forçá-la a uma queda. Foram movimentos rápidos, precisos e potentes – como se esperaria ser os movimentos de um guerreiro. Mas a coisa foi mais rápida, mais precisa e, senão mais potente, mais violenta e feroz. Abaixou a cabeça de modo que o cotovelo do homem atingiu seu crânio sólido e, em conjunto, contorceu o corpo de tal forma que a mão e coxa do homem escorregaram. Avançando terrível para dentro do espaço do homem, a fera cravou as unhas da mão esquerda no ombro, e as unhas da mão direita no pescoço dele.

Ele berrou e, subjugado pela dor e pelo domínio sobre seu pescoço, caiu de joelhos. Falando entre rosnados, a criatura disse: 'Quieto'. Sem forças para revidar, o homem acatou passivamente à ordem sem tentar novo ataque. Satisfeita, a criatura dirigiu-se para a saída da tenda. Enquanto ela atravessava os panos da tenda, saindo, o homem, averiguando os ferimentos em seu ombro, tentava aceitar, quase não acreditando, que aquela monstruosidade que lhe repelira o ataque tão completamente, aquela besta de garras afiadas, aquela fera terrível...

Era uma mulher.


O homem nem teve tempo de contemplar sua situação. Logo ressurgiu a fera que o arranhou pelos panos da tenda. Trazia dessa vez numa das mãos uma chave e, na outra, uma faca de lâmina longa – para assegurar-se de que o homem não iria tentar novas gracinhas. Mas nem era necessária a faca; no fundo de sua alma, aquele guerreiro encontrava-se perdidamente apavarado.

Aproximando-se perigosa, posicionou-se rápida nas costas do homem, tendo a faca em seu pescoço. Daí, usou a chave em sua outra mão para libertá-lo, sem jamais deixar a lâmina afastar-se. Qualquer movimento, e ela não teria remorso em findar-lhe a vida. Mas dentro dos abismos de sua alma, o homem sentia o terror apoderando-se de seu ser. E, quando uma alma torna-se abrigo do pânico, todo juízo e continência mental são perdidos.

Então, assim que viu-se liberto, ele projetou-se com toda a força que pôde na direção da saída. Sentiu a lâmina da faca escorregar por seu pescoço, desenhando um traço fino de sangue na sua pele. Teria seu movimento brusco pego a fera de surpresa? Ou será que ela queria deixá-lo escapar? Esse dois pensamentos percorreram simultaneamente sua mente conforme disparava para a saída, os mantos puídos que cobriam seu corpo ficando para trás. Mas assim que seus olhos ultrapassaram o limite da tenda, toda a sua fortitude mental deixou seu espírito.

Ele estava rodeado de monstros.

Para todo canto que olhasse, via essas criaturas curvadas, sentadas sobre as próprias pernas, agachadas feito bichos e olhando para ele com aqueles olhos frios e caçadores. Com cabelos longos e desalinhados feito espinhais, unhas grossas e curvas feito foices. Algumas vestiam mantos pesados, outras, desnudas da cintura para cima, mostravam corpos salgados por cicatrizes. Algumas carregavam lanças sobre o colo. Algumas riam, algumas rosnavam. E todas, com seus olhos que pareciam mover-se em uníssono, com seus movimentos que pareciam coordenados, eram mulheres. Como uma alcatéia de lobas.

Agora, toda a alcatéia olhava o homem nu que tramitava em sua toca. Frente àquela visão de pesadelo, as pernas do homem travaram no lugar. “Isso é impossível. Nunca em todo império vi mulheres como essas”, pensou ele, paralisado. Foi preciso que a sua carcereira saísse da tenda e colocasse a faca em suas costas para obrigá-lo a andar.

'Segue', disse ela, dando-lhe um chute nas costas, 'a Alfa te quer ver'.

Assim, entre chutes, o homem foi forçado a se mover e empurrado pelo acampamento. Dos seus dois lados, as mulheres caçadoras formavam um corredor de corpos. Algumas sorriam com indiscreta malignidade, outras tinham nele olhares fixos e mórbidos. Cada uma com marcas no corpo: feridas, lacerações. Todas marcas de batalhas. Cada vez mais acuado, o homem seguiu o caminho que lhe era chutado. “Que tipo de pesadelo é esse? Mulheres portando armas, vivendo feito animais, sujas, feias e brutas?”, pensou ele, seus olhos percorrendo o chão e esforçando-se ao máximo para não olhar nos olhos daquelas lobas

Mais alguns passos, subindo por uma colina, ele pôde ver, ao lado de uma enorme fogueira de acampamento – que agora era somente cinzas e brasas – uma mulher sentada numa rocha acima de todas as outras. De pé, ao lado da rocha e abaixo dela, ele pôde reconhecer a figura com o olho vazado e o cabelo falhado que havia visto anteriormente. Esta caolha, quando ele já se encontrava há poucos metros da enorme rocha, aproximou-se dele e, sem cerimônias, disse com voz aspirada: 'Ajoelha'.

Por um momento, ele hesitou. Aprendera a dobrar o joelho diante só do imperador. “Quem esses bichos pensam que são”, imaginou enquanto fitava prepotente o único olho bom da mulher caolha. Mas, ao perceber o desejo assassino refletido claramente no olho da mulher, um medo terrível tomou o seu espírito e subeverteu toda a sua arrogância, a substituindo por uma vontade irrefreável de autopreservação. Então, ele começou a se abaixar, mas a caolha não queria mais esperar. Chutou-lhe com força e forçou-lhe ao chão. Por toda a volta, as outras riram, vendo o homem lamentando a queda.

Aquela fora a última gota de humilhação que poderia suportar. Nu, obrigado a caminhar entre mulheres e por mulheres espancado – esse era o limite que um guerreiro, um soldado, um homem poderia suportar. Ergueu-se do chão num gesto, não se importando mais com que poderia acontecer consigo.

'Suas mulheres insolentes, nojentas!', esbravejou, com seu corpo nu balançando, 'Não sei como conseguiram me capturar, mas irão se arrepender. Quando o imperador souber do que aconteceu, irá mandar um batalhão atrás de vocês para colocar vocês em seu devido lugar'. Ele fez uma pausa, olhando com desprezo todas que seus olhos puderam encontrar. 'Nem seria necessário um batalhão! Se eu tivesse com minhas irmas, eu mesmo mataria todas vocês!'. Quando terminou de falar, as mulheres riram descontroladamente. Ele, cada vez mais frustrado e evergonhado, tentava gritar acima das risadas, 'Parem de rir, seus bichos nojentos! Parem!'. Em meio à algazarra, uma voz fina e controlada soou:

'General Li', a voz falou pausadamente, e todas as outras vozes silenciaram para ouvir, 'Você teve suas armas, e as perdeu'. O homem nu virou-se para a grande rocha onde sentava a Alfa que, com um aspecto pétreo, olhava-o sem qualquer traço de emoção. 'Você e seu batalhão atravessaram o deserto para dentro de nosso território. Educadamente, enviamos uma mensageira para lhes advertir. Vocês a humilharam, estupraram e a mandaram de volta para nós para que servisse de exemplo. Nós entendemos bem o exemplo, General Li. Na mesma noite que nossa irmã retornou ferida, marchamos. E, pela noite, atacamos seu batalhão. E, pela noite, nossas presas e garras estriparam seus homens. Três deles para cada uma de nós. Agora, seus pedaços estão espalhados pelo acampamento. Agora, General Li, são eles que servem de exemplo'.

O homem sentiu o peso infinito do olhar daquela mulher sobre si. Era como o olhar de milhares de anos passando através dele, esmagando-o. As outras oviam as palavras da líder silenciosas, quase como se meditassem. A Alfa, depois de um intervalo, voltou à fala: 'Portanto, já teve suas armas, General Li, e as perdeu. Mas', e a mulher levou a mão para dentro de seu manto, tirando dele uma adaga, 'Se tanto deseja assim uma batalha, que a tenha', e arremessou aos pés do homem a arma.

Prontamente, ele alcançou o punhal e manteu-o firme no punho, olhando em volta. A Alfa, com displicência, fez contato visual com a caolha e, sem qualquer troca de palavras, a caolha concordou afirmativamente com a cabeça. Virou-se então para o homem nu e, sem trocar palavras, lançou-se contra ele.

A batalha não durou muito. Em cada estocada que dava, o homem encontrava apenas vento. Toda vez que virava o rosto, perdia a inimiga das vistas. Quando achava encontrar a sombra dela, via somente o vazio. Quando finalmente achou estar em posição de vantagem, ela dominou-lhe pelas costas, forçou o punhal para fora de sua mão o colocou em joelhos.

Em meio aos gritos de euforia das caçadoras, o homem lamentou: 'Mas eu estou ferido! É lógico que, mesmo armado, não teria como vencê-la!'.

Num rosnado de ódio, a caolha olhou para o homem. 'Será que para tudo terá você desculpas?', e, de imediato, despiu-se do manto que envolvia seu corpo. Debaixo do tecido, seu ventre nu apresentava inúmeros cortes recentes e ferimentos. 'Tenho uma cicatriz para cada um de seus fios de cabelo, soldado', disse a caolha, com um sorriso saboroso de ironia.

Todas as guerreiras rosnaram e uivaram pela resposta, mas imediatamente se calaram quando a Alfa novamente se pôs a falar:

'E novamente, General Li, perdeu as armas', comentou, fria, o olhar fixo no homem derrotado. 'Mas não será hoje que vai morrer, não. Hoje irá viver. E irá seguir até a fronteira do deserto. Seu caminho será guardado por nós. E depois, irá até a capital. Lá, irá ajoelhar-se em frente ao imperador, ao seu imperador. E para ele há de contar tudo que viveu aqui. E irá contar sobre nós, sobre o deserto, sobre as nossas terras e nossa lei. E irá contar que as estepes e os desertos são agora as terras das Lobas de Sangue. A assim falou Ventania Xuan Feng'.


E todas a lobas uivaram enquanto o homem nu corria pela noite, com os ventos frios navalhados cortando sua pele exposta.

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