O homem abriu os olhos numa crispada de agonia, como se as pálpebras
fossem pólvora estourando. Sua respiração estava rápida, cortada,
o peito inchando e esvaziando desritmado e réptico. Sua mente
borbulhava como se fervendo, num turvilhão de dor. Imagens
aproximavam-se da superfície de seus pensamentos – gritos,
estandartes flamulando ao vento, mais gritos, formas ambulando na
noite, golpes – mas rapidamente se desfaziam conforme a bolha da
imagem estourava na orla da mente, ardendo.
Buscando apaziguar o sofrimento, ele tentou levar a mão à cabeça,
mas seu braço foi impedido em meio caminho. Em seu pulso, havia uma
corrente prendendo seu braço a uma estaca de madeira fixa no chão.
Com um movimento desesperado, o homem puxa as correntes, numa
tentativa vá de libertar-se, enquanto sua mente buscava – em vão
– se lembrar como foi que ele veio parar ali. Somente no terceiro
puxão foi que o homem percebeu não só a dor que sentia no pulso,
mas também da que envolvia o corpo inteiro: braços, pernas, costas.
Resmungou, contorcendo o corpo no chão de terra e barro, frio,
arenoso e urticante. E sentiu que,
debaixo das mantas puídas que o cobriam superficialmente, ele estava
nu. Seu corpo, nu e
largado e preso.
Agora, um súbito pânico
arrebatava-lhe o peito. Agoniado, virou o pescoço em todas as
direções, procurando alguma explicação. Com os olhos correndo
alarmados um canto a outro, foi então finalmente que ele tomou noção
de tudo: As paredes de
pano, armadas em traves de madeira sobre o tecido agreste da terra e
da poeira. A corrente em seu braço atrelada numa estaca crua e
grosseira. Ele havia sido
capturado. E, pior e
mais terrível ainda, havia, a poucos passos de si, uma figura que o
olhava, atenta, fria e feroz.
Era uma...mulher? Não tinha
certeza, como poderia ser? Aquela coisa, aquele bicho, aquele
monstro? Não podia
ter certeza. Mantos grossos e pesados caíam sobre toda a dimensão
do corpo, tapando grande parte das peles e dificultando uma melhor
inspeção. Mas debaixo daquelas roupas grossas, parecia ter as
costadas curvadas e estar montada sobre as próprias pernas, dobradas
em posição de cócoras. Suas mãos de unhas longas garriformes
apoiavam-se no solo frio e sujo. Os seus cabelos longos, escuros e
cheios de nós caíam sobre seu rosto como um mato de espinhos. E seu
rosto era inteiro o retrato gargólico de uma fera,
as bochechas e dentes arqueando para trás como que preparasse para
rosnar, os olhos afinalados como um tigre antes do bote.
Num impulso, o homem recuou alguns
passos e tateou todo o chão à volta em busca das suas armas, mas
nada encontrou. Nada havia próximo de si para interpor a distância
entre ele e aquela...coisa.
Averiguou melhor a situação. Tentou acalmar os nervos e julgar o
problema com a cabeça fria. Mesmo com um dos braços atados a uma
estaca de madeira, e mesmo de corpo nu, seria capaz de deter o ataque
de uma mulher – disso tinha absoluta certeza. Daí, esperou, olhos
atentos na criatura, observando. Mas, além de emitir um rosnado
baixo e manter uma postura bestial, a criatura fez nada.
Antes que o homem pudesse fazer uso
de outra ação, um novo rosto apareceu distante através dos panos
da tenda. E agora, o que seria aquilo? Era
outro rosto mais fera do que humano, talvez até mesmo ainda mais
monstruoso. Dispunha
de inúmeras cicatrizes pela face cuja pele ferida tinha aspecto de
couro. Havia uma falha em sua cabeça onde os cabelos desapareciam
numa escara terrível, e um dos olhos estava vazado, sem vida.
A nova criatura lançou a visão
sobre o que acontecia dentro da tenda. Deitou o olhar sobre o homem,
depois para a outra fera. Com esta, trocou alguns rosnados curtos e,
tão subitamente quanto aparecera, sumira. Já a fera que permaneceu
na tenda ergueu-se das cócoras e, andando animalescamente sobre os
pés, aproximou-se do homem.
Ele devia agir agora.
O que sucedeu foi rápido. O homem,
como um raio, levantou os braços e usou de sua força e tamanho
superiores para chocar-se contra a fera. Seu cotovelo direito foi
contra o rosto dela, enquanto que, apoiando a mão esquerda contra o
peito da fera, usou as coxas para forçá-la a uma queda. Foram
movimentos rápidos, precisos e potentes – como se esperaria ser os
movimentos de um guerreiro. Mas a coisa foi mais rápida, mais
precisa e, senão mais potente, mais violenta e feroz. Abaixou a
cabeça de modo que o cotovelo do homem atingiu seu crânio sólido
e, em conjunto, contorceu o corpo de tal forma que a mão e coxa do
homem escorregaram. Avançando terrível para dentro do espaço do
homem, a fera cravou as unhas da mão esquerda no ombro, e as unhas
da mão direita no pescoço dele.
Ele berrou e, subjugado pela dor e
pelo domínio sobre seu pescoço, caiu de joelhos. Falando entre
rosnados, a criatura disse: 'Quieto'. Sem
forças para revidar, o homem acatou passivamente à ordem sem tentar
novo ataque. Satisfeita, a criatura dirigiu-se para a saída da
tenda. Enquanto ela atravessava os panos da tenda, saindo, o homem,
averiguando os ferimentos em seu ombro, tentava aceitar, quase não
acreditando, que aquela monstruosidade que lhe repelira o ataque tão
completamente, aquela besta de garras afiadas, aquela fera
terrível...
Era uma mulher.
O homem nem teve tempo de
contemplar sua situação. Logo ressurgiu a fera que o arranhou pelos
panos da tenda. Trazia dessa vez numa das mãos uma chave e, na
outra, uma faca de lâmina longa – para assegurar-se de que o homem
não iria tentar novas gracinhas. Mas nem era necessária a faca; no
fundo de sua alma, aquele guerreiro encontrava-se perdidamente
apavarado.
Aproximando-se perigosa,
posicionou-se rápida nas costas do homem, tendo a faca em seu
pescoço. Daí, usou a chave em sua outra mão para libertá-lo, sem
jamais deixar a lâmina afastar-se. Qualquer movimento, e ela não
teria remorso em findar-lhe a vida. Mas dentro dos abismos de sua
alma, o homem sentia o terror apoderando-se de seu ser. E, quando uma
alma torna-se abrigo do pânico, todo juízo e continência mental
são perdidos.
Então, assim que viu-se liberto,
ele projetou-se com toda a força que pôde na direção da saída.
Sentiu a lâmina da faca escorregar por seu pescoço, desenhando um
traço fino de sangue na sua pele. Teria seu movimento brusco pego a
fera de surpresa? Ou será que ela queria deixá-lo
escapar? Esse dois pensamentos
percorreram simultaneamente sua mente conforme disparava para a
saída, os mantos puídos que cobriam seu corpo ficando para trás.
Mas assim que seus olhos ultrapassaram o limite da tenda, toda a sua
fortitude mental deixou seu espírito.
Ele estava rodeado de
monstros.
Para todo canto que olhasse, via essas criaturas curvadas, sentadas
sobre as próprias pernas, agachadas feito bichos e olhando para ele
com aqueles olhos frios e caçadores. Com cabelos longos e
desalinhados feito espinhais, unhas grossas e curvas feito foices.
Algumas vestiam mantos pesados, outras, desnudas da cintura para
cima, mostravam corpos salgados por cicatrizes. Algumas carregavam
lanças sobre o colo. Algumas riam, algumas rosnavam. E todas, com
seus olhos que pareciam mover-se em uníssono, com seus movimentos
que pareciam coordenados, eram mulheres. Como uma alcatéia de lobas.
Agora, toda a alcatéia olhava o homem nu que tramitava em sua toca.
Frente àquela visão de pesadelo, as pernas do homem travaram no
lugar. “Isso é impossível. Nunca em todo império vi mulheres
como essas”, pensou ele, paralisado. Foi preciso que a sua
carcereira saísse da tenda e colocasse a faca em suas costas para
obrigá-lo a andar.
'Segue', disse ela, dando-lhe um chute nas costas, 'a Alfa te quer
ver'.
Assim, entre chutes, o homem foi forçado a se mover e empurrado
pelo acampamento. Dos seus dois lados, as mulheres caçadoras
formavam um corredor de corpos. Algumas sorriam com indiscreta
malignidade, outras tinham nele olhares fixos e mórbidos. Cada uma
com marcas no corpo: feridas, lacerações. Todas marcas de batalhas.
Cada vez mais acuado, o homem seguiu o caminho que lhe era chutado.
“Que tipo de pesadelo é esse? Mulheres portando armas, vivendo
feito animais, sujas, feias e brutas?”, pensou ele, seus olhos
percorrendo o chão e esforçando-se ao máximo para não olhar nos
olhos daquelas lobas
Mais alguns passos, subindo por uma colina, ele pôde ver, ao lado
de uma enorme fogueira de acampamento – que agora era somente
cinzas e brasas – uma mulher sentada numa rocha acima de todas as
outras. De pé, ao lado da rocha e abaixo dela, ele pôde reconhecer
a figura com o olho vazado e o cabelo falhado que havia visto
anteriormente. Esta caolha, quando ele já se encontrava há poucos
metros da enorme rocha, aproximou-se dele e, sem cerimônias, disse
com voz aspirada: 'Ajoelha'.
Por um momento, ele hesitou. Aprendera a dobrar o joelho diante só
do imperador. “Quem esses bichos pensam que são”, imaginou
enquanto fitava prepotente o único olho bom da mulher caolha. Mas,
ao perceber o desejo assassino refletido claramente no olho da
mulher, um medo terrível tomou o seu espírito e subeverteu toda a
sua arrogância, a substituindo por uma vontade irrefreável de
autopreservação. Então, ele começou a se abaixar, mas a caolha
não queria mais esperar. Chutou-lhe com força e forçou-lhe ao
chão. Por toda a volta, as outras riram, vendo o homem lamentando a
queda.
Aquela fora a última gota de humilhação que poderia suportar. Nu,
obrigado a caminhar entre mulheres e por mulheres espancado – esse
era o limite que um guerreiro, um soldado, um homem poderia
suportar. Ergueu-se do chão num gesto, não se importando mais com
que poderia acontecer consigo.
'Suas mulheres insolentes, nojentas!', esbravejou, com seu corpo nu
balançando, 'Não sei como conseguiram me capturar, mas irão se
arrepender. Quando o imperador souber do que aconteceu, irá mandar
um batalhão atrás de vocês para colocar vocês em seu devido
lugar'. Ele fez uma pausa, olhando com desprezo todas que seus olhos
puderam encontrar. 'Nem seria necessário um batalhão! Se eu tivesse
com minhas irmas, eu mesmo mataria todas vocês!'. Quando terminou de
falar, as mulheres riram descontroladamente. Ele, cada vez mais
frustrado e evergonhado, tentava gritar acima das risadas, 'Parem de
rir, seus bichos nojentos! Parem!'. Em meio à algazarra, uma voz
fina e controlada soou:
'General Li', a voz falou pausadamente, e todas as outras vozes
silenciaram para ouvir, 'Você teve suas armas, e as perdeu'. O homem
nu virou-se para a grande rocha onde sentava a Alfa que, com um
aspecto pétreo, olhava-o sem qualquer traço de emoção. 'Você e
seu batalhão atravessaram o deserto para dentro de nosso território.
Educadamente, enviamos uma mensageira para lhes advertir. Vocês a
humilharam, estupraram e a mandaram de volta para nós para que
servisse de exemplo. Nós entendemos bem o exemplo, General Li.
Na mesma noite que nossa irmã retornou ferida, marchamos. E, pela
noite, atacamos seu batalhão. E, pela noite, nossas presas e garras
estriparam seus homens. Três deles para cada uma de nós. Agora,
seus pedaços estão espalhados pelo acampamento. Agora, General Li,
são eles que servem de exemplo'.
O homem sentiu o peso infinito do olhar daquela mulher sobre si. Era
como o olhar de milhares de anos passando através dele, esmagando-o.
As outras oviam as palavras da líder silenciosas, quase como se
meditassem. A Alfa, depois de um intervalo, voltou à fala:
'Portanto, já teve suas armas, General Li, e as perdeu. Mas', e a
mulher levou a mão para dentro de seu manto, tirando dele uma adaga,
'Se tanto deseja assim uma batalha, que a tenha', e arremessou aos
pés do homem a arma.
Prontamente, ele alcançou o punhal e manteu-o firme no punho,
olhando em volta. A Alfa, com displicência, fez contato visual com a
caolha e, sem qualquer troca de palavras, a caolha concordou
afirmativamente com a cabeça. Virou-se então para o homem nu e, sem
trocar palavras, lançou-se contra ele.
A batalha não durou muito. Em cada estocada que dava, o homem
encontrava apenas vento. Toda vez que virava o rosto, perdia a
inimiga das vistas. Quando achava encontrar a sombra dela, via
somente o vazio. Quando finalmente achou estar em posição de
vantagem, ela dominou-lhe pelas costas, forçou o punhal para fora de
sua mão o colocou em joelhos.
Em meio aos gritos de euforia das caçadoras, o homem lamentou: 'Mas
eu estou ferido! É lógico que, mesmo armado, não teria como
vencê-la!'.
Num rosnado de ódio, a caolha olhou para o homem. 'Será que para
tudo terá você desculpas?', e, de imediato, despiu-se do manto que
envolvia seu corpo. Debaixo do tecido, seu ventre nu apresentava
inúmeros cortes recentes e ferimentos. 'Tenho uma cicatriz para cada
um de seus fios de cabelo, soldado', disse a caolha, com um sorriso
saboroso de ironia.
Todas as guerreiras rosnaram e uivaram pela resposta, mas
imediatamente se calaram quando a Alfa novamente se pôs a falar:
'E novamente, General Li, perdeu as armas', comentou, fria, o olhar
fixo no homem derrotado. 'Mas não será hoje que vai morrer, não.
Hoje irá viver. E irá seguir até a fronteira do deserto. Seu
caminho será guardado por nós. E depois, irá até a capital. Lá,
irá ajoelhar-se em frente ao imperador, ao seu imperador. E
para ele há de contar tudo que viveu aqui. E irá contar sobre nós,
sobre o deserto, sobre as nossas terras e nossa lei. E irá contar
que as estepes e os desertos são agora as terras das Lobas de
Sangue. A assim falou Ventania Xuan Feng'.
E todas a lobas uivaram enquanto o homem nu corria pela noite, com
os ventos frios navalhados cortando sua pele exposta.

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