domingo, 7 de dezembro de 2014

Animalia – Dona Sora Consuelo




'Hoje é dia de chuva, hoje é dia de frio. Hoje é dia em que os lobos uivam com os ventos e se tornam fumaça. Hoje é dia que raios cruzam com nuvens e molham a terra. Hoje é dia em que as pedras afundam na areia encharcada e criam montanhas. Portanto, se aproximem, adultos e pequeninos, se aprocheguem filhotes e jovites, que hoje a Consuelo vai contar de segredos sussurrados pelo gelo, das regras ocultas das ruas, da textura das do asfalto rachaduras e das cores que têm os arco-írises no escuro'


Assim ia bradando a velha lince, parolando no centro de uma praça de gramado fofo, pintado escuro pelas sombras. Em volta, ventos e chuvas caíam sem parar e incansavelmente, debatendo-se contra o toldo que envolvia a enorme praça.

Mas a velha lince não parecia incomodada. Com roupas leves e levitantes, seus gestos todos eram acompanhados de sons de trinquetes e trinados por cada pulseira, colar e brinco que adornavam seu corpo. Já um tantinho curvada pela idade, suas formas enxutas e cheias dançavam chamativamente conforme vários bichinhos vinham se achegando, sentando nas pedras e bancos e pufes na grama, parecendo igualmente curiosos e acanhados. Ao lado da Lince, avoavam-se dois canarinhos coloridos que, também em espalhafatações – dançando, saltitando e gesticulando –, captavam a atenção dos olhos de todos.

Já cansando de esperar, a Lince pôs as mãos na cintura e gritou mais uma vez: 'Venham todos, venham logo, que a Dona Sora Consuelo quer falar! A noite, assim como é, já se curva, e seu tempo será suspenso logo. Então venham logo, vamos lá, que a Consuelo quer falar!'. E ao seu lado, como eco, repetiram os canários, 'Consuelo quer falar! Consuelo quer falar!'.

Mais uns momentos, mais um tantinho, e logo, sentadinhos, muitos bichinhos estavam prontinhos para ouvir o que a famosa Sora Consuelo ia contar. Renomada por suas prendas, simpatias e miríade de conhecimentos ocultos, sempre que a velha Dona se predispunha a espalhar seu verbo, nada melhor a fazer senão sentar e escutar. E, se tivessem com algo em mãos para recordar – seja uma câmera, caderno ou computador – então era só tratar logo de anotar tudo que a Lince pudesse revelar sobre os segredos das ruas, centros e becos de Animalia.

Vendo já uma bicharada considerável reunida à sua frente, Consuelo limpou a voz e abriu os braços. 'Mas que grupo curioso tenho hoje aqui, na praça reunido. Vejo alguns adultos, e também vejo alguns antigos; mas, em sua maioria, vejo muitos rostos abaixo da linha da juventude. Tantos jovites, tantos filhotes...', e a velha lince suspirou, 'Isso me traz à superfície da memória meus tempos de pequena, quando perambulava de meias longas pelas ruas e procurava o fio do meu próprio caminho. Agora, já se foram passados muitos anos, mas nem estou triste. O broto perde as folhas, mas o tronco sempre cresce'.

E os canarinhos, voando próximos da velha lince, a abraçam intimamente e beijam-lhe os lábios, repetindo amavelmente, 'O tronco sempre cresce! O tronco sempre cresce!'.

Nisso, um leãozinho com apenas alguns tufos de juba começando a surgir no rosto pequeno, fez uma careta e deixou escapar pela boca um enorme 'Eca!'. Dona Consuelo, curiosa com a reação, virou-se para o menino e perguntou-lhe:

'O que foi, pequeno? Por que dessa careta?'. Muitos olhos viraram-se para encarar o pequeno leão e ele, um tanto constrangido pela situação, gaguejou um pouco enquanto respondia: 'B-bem, é que isso é tão estranho. Dois canários tão novinhos não deviam beijar assim alguém mais velho'.

'Ora essa, mas que palavras sonsas!', disse Consuelo, sorridente, 'E faladas de modo tão automático e forçado que nem parecem vir de seu coração. Parecem mais com palavras vindas de outras pessoas e repetidas por rotina. Deixe-me adivinhar: ouviu isso de seus pais, não foi?'.

O leãozinho concordou com a cabeça, desconcertado.

'Eu sabia', falou Consuelo, aproximando-se do pequeno e alisando sua insipiente juba, 'Esse tipo de fala sempre soa torto na boca de alguém novo. E você é tão pequeno, deve nem ter chegado aos quinze ainda'.

'Sim, dona Consuelo. Tenho treze anos', o leãozinho confessou, tímido, 'É a minha primeira vez sozinho nas ruas, longe do centro'.

'Nossa, a primeira vez? Mas que curioso!', e Consuelo fez uma pausa, erguendo a mão bem alto e virando-se para os outros bichos, 'Digam-me, pequenos, de quem aqui é a primeira vez hoje nas ruas noturnas de Animalia?'.

E muitos dos pequninos levantaram as mãos. Consuelo abriu um sorriso, 'Mas que noite afortunada, mas que noite bela! Não é mesmo, meus canarinhos?'. E os canarinhos, ecoando, repetiram: 'Que noite bela! Que noite bela!'.

'Pois bem, está decidido: essa noite falarei especialmente para os pequenos iniciantes! Afastem-se os jovens, adultos e antigos, que hoje a Consuelo dirigirá palavras para os filhotes e jovites!'. A velha lince fez fez uma pequena pausa, olhando para os olhos curiosos dos pequenotes a observá-la. 'Então quer dizer que todos vocês estão espichando as caudas pela primeira vez? Usando pela primeira vez as saias curtas e calças apertadas, maquiagem, tinta e gel? Imagino que estejam muito nervosos, não?'.

'Não estamos não!', disseram alguns filhotes, negando com a cabeça veementemente. Porém, os maiores – que já começavam a sentir o peso da tradição e do pudor – ficaram meio que num silêncio constrangido, enquanto trocavam olhares entre si. Consuelo deu risada:

'Ah, mas não se preocupem os assustados, nem também os mais nervosos e inseguros. É verdade, eu sei, a primeira noite é sempre a mais longa, e as horas passam como que rolassem, e as dores perdoem pela semana adentro. Mas as imagens – ah, as imagens! - estas nos acompanharão para sempre. Tanto em seu bons momentos, quanto em ses maus. Mas não se deixem inibir. Tomem tudo como uma oportunidade. Usem de hoje para aprender, usem dessa sua primeira noite para orquestrarem em si os ritmos dos seus corações. Provem de tudo quanto puderem, de tantas quanto houverem pétalas cada corpo, cada biologia. Encontrem o gosto que lhes é natural; para além de todo bem, para além de todo mal. Independente das raízes do centro, do certo, do errado. Criem seus próprios nomes e pintem com suas próprias cores. Pois aqui, nessa noite abençoada de névoa, chuva e fumaça, ignorem as normas, não se importem com a mandragora'.

E os canarinhos sempre repetentes disseram: 'Não se importem com a mandragora! Não se importem com a mandragora!', enquanto beijavam os lábios da velha Consuelo e a abraçavam forte e íntimos. À volta, a tempestade rugia e ventos frios lambiam as peles e pelos e cabelos de todos. Mas Consuelo continuava de pé, agora circulando em volta dos pequenos e gesticulando dramaticamente:

'Agora, apurem os ouvidos e afiem a atenção para o que Dona Sora Consuelo vai falar: Animalia tem várias regras ocultas que vigoram pela noite e que mudam aos sabores das estações e ao capricho das emoções. E para vocês, recém-chegados nesta dança noturna, existem alguns conselhos bons que devem ser lembrados', e Consuelo ergueu o dedo indicador, exigindo atenção. Seus canarinhos repetiram, 'Que devem ser lembrados! Que devem ser lembrados!'.

Consuelo ergueu o indicador, 'O centro é da mandragora e da realeza – dos leões, das águias, dos cervos e seus semelhantes –, mas as ruas pertencem ao vento. Quanto mais fundo nelas descerem, mais aberto devem deixar seus corações para novos sorrisos. Para os muito novos, cuidado com as ruas pouco iluminadas; nela há predadores que ansiarão por rasgar-lhes a carne! Tenham cuidado especial com os ursos. Quando virem algum, tomem nota da longitura de seus pelos. Se o pelo descer longo e sinuoso, abrace o urso como almofada. Mas tenham medo e fujam dos ursos de pelo curto, de suas chamas vermelhas que escondem as folhas da Mandragora. E, o que quer que vocês façam, não vão para onde os ursos comem!

'E caso se virem perdidos nas ruas, procurem a música dos pássaros, pois ela acaricia a pele e norteia o sangue. E falando de música, prestem atenção ao canto das raposas pois, apesar de ninguém saber o que dizem, sua voz traz respostas para o mistério que pode mudar um rosto triste em alegre.

'E se mesmo assim sentirem o peso do mundo nas costas, procurem pelas pegadas dos lobos. Apesar de não serem realeza e sobre suas cabeças não haver coroas, eles tem como jóia a Lua. Sempre confiem em seu uivo, mas, caso criem rixa com algum deles, cuidado com os calcanhares expostos às suas mordidas. E nunca digam aonde vão, a menos que queiram um lobo sempre seguindo o rastro do seu cheiro.

'Mas se seus corações desejarem algo mais, ou se as ruas já não lhes forem o bastante, vão para além delas, atravessem os becos. Façam amizades com as aranhas em suas teias de cristal. Dancem as danças de cem passos das centopeias. Percam-se nas luzes dos formigueiros, onde ao entrar em contato com tantos corpos vocês já não saberão mais quando o seu termina e o outro começa'.

Fazendo uma pausa para observar a bicharada, Consuelo viu que os olhinhos de todos brilhavam. Alguns pareciam pronto para saírem correndo pelas ruas e provar a noite em toda sua extensão. Outros, assustados, mostravam um receio imenso – mas, igualmente, uma curiosidade tremenda escorria de seus olhos.

'E não tenham medo de dançar seus corpos pelos cantos. Toda forma é bem vinda, todo tipo atrai algum outro. Toda beleza não é absoluta, mas sim circunstancial. Arrumem seus corpos como se pintassem as nuvens. Expressem na pele o arco-íris de sua alma!', e os canarinhos repetiram, 'O arco-íris de sua alma! De sua alma!'.

E a velha lince, já um tanto cansada de tanto falar, finalizou. 'E chega de lições por hora, agora é hora de vocês saírem pela noite e procurarem os fios dos seus próprios caminhos. Vão, pequnos, rápido, pois a noite é curta e logo finda. Vão antes dos primeiros raios do dia, vão depressa e vão ligeiras!'.

Tão logo terminou de falar, movidas por tudo que a antiga falou, os pequenos se juntaram em grupos e foram perder-se nas sombras da noite. Conforme a bicharada dispersava, Dona Sora Consuelo procurou um banco para sentar-se, seus dois canarinhos sentando em seu colo.


'Hoje é uma noite afortunada, realmente'. E os canarinhos, sorridentes, disseram entre beijos, 'Realmente! Realmente!'.

Image 1

(obs: sei que a foto é de uma raposa, mas não consegui encontrar uma de uma lince com aspecto de bruxa, =x)

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