'Hoje é
dia de chuva, hoje é dia de frio. Hoje é dia em que os lobos uivam
com os ventos e se tornam fumaça. Hoje é dia que raios cruzam com
nuvens e molham a terra. Hoje é dia em que as pedras afundam na
areia encharcada e criam montanhas. Portanto, se aproximem, adultos e
pequeninos, se aprocheguem filhotes e jovites, que hoje a Consuelo
vai contar de segredos sussurrados pelo gelo, das regras ocultas das
ruas, da textura das do asfalto rachaduras e das cores que têm os
arco-írises no escuro'
Assim ia
bradando a velha lince, parolando no centro de uma praça de gramado
fofo, pintado escuro pelas sombras. Em volta, ventos e chuvas caíam
sem parar e incansavelmente, debatendo-se contra o toldo que envolvia
a enorme praça.
Mas a
velha lince não parecia incomodada. Com roupas leves e levitantes,
seus gestos todos eram acompanhados de sons de trinquetes e trinados
por cada pulseira, colar e brinco que adornavam seu corpo. Já um
tantinho curvada pela idade, suas formas enxutas e cheias dançavam
chamativamente conforme vários bichinhos vinham se achegando,
sentando nas pedras e bancos e pufes na grama, parecendo igualmente
curiosos e acanhados. Ao lado da Lince, avoavam-se dois canarinhos
coloridos que, também em espalhafatações – dançando, saltitando
e gesticulando –, captavam a atenção dos olhos de todos.
Já
cansando de esperar, a Lince pôs as mãos na cintura e gritou mais
uma vez: 'Venham todos, venham logo, que a Dona Sora Consuelo quer
falar! A noite, assim como é, já se curva, e seu tempo será
suspenso logo. Então venham logo, vamos lá, que a Consuelo quer
falar!'. E ao seu lado, como eco, repetiram os canários, 'Consuelo
quer falar! Consuelo quer falar!'.
Mais uns
momentos, mais um tantinho, e logo, sentadinhos, muitos bichinhos
estavam prontinhos para ouvir o que a famosa Sora Consuelo ia contar.
Renomada por suas prendas, simpatias e miríade de conhecimentos
ocultos, sempre que a velha Dona se predispunha a espalhar seu verbo,
nada melhor a fazer senão sentar e escutar. E, se tivessem com algo
em mãos para recordar – seja uma câmera, caderno ou computador –
então era só tratar logo de anotar tudo que a Lince pudesse revelar
sobre os segredos das ruas, centros e becos de Animalia.
Vendo já
uma bicharada considerável reunida à sua frente, Consuelo limpou a
voz e abriu os braços. 'Mas que grupo curioso tenho hoje aqui, na
praça reunido. Vejo alguns adultos, e também vejo alguns antigos;
mas, em sua maioria, vejo muitos rostos abaixo da linha da juventude.
Tantos jovites, tantos filhotes...', e a velha lince suspirou, 'Isso
me traz à superfície da memória meus tempos de pequena, quando
perambulava de meias longas pelas ruas e procurava o fio do meu
próprio caminho. Agora, já se foram passados muitos anos, mas nem
estou triste. O broto perde as folhas, mas o tronco sempre cresce'.
E os
canarinhos, voando próximos da velha lince, a abraçam intimamente e
beijam-lhe os lábios, repetindo amavelmente, 'O tronco sempre
cresce! O tronco sempre cresce!'.
Nisso,
um leãozinho com apenas alguns tufos de juba começando a surgir no
rosto pequeno, fez uma careta e deixou escapar pela boca um enorme
'Eca!'. Dona Consuelo, curiosa com a reação, virou-se para o menino
e perguntou-lhe:
'O que
foi, pequeno? Por que dessa careta?'. Muitos olhos viraram-se para
encarar o pequeno leão e ele, um tanto constrangido pela situação,
gaguejou um pouco enquanto respondia: 'B-bem, é que isso é tão
estranho. Dois canários tão novinhos não deviam beijar assim
alguém mais velho'.
'Ora
essa, mas que palavras sonsas!', disse Consuelo, sorridente, 'E
faladas de modo tão automático e forçado que nem parecem vir de
seu coração. Parecem mais com palavras vindas de outras pessoas e
repetidas por rotina. Deixe-me adivinhar: ouviu isso de seus pais,
não foi?'.
O
leãozinho concordou com a cabeça, desconcertado.
'Eu
sabia', falou Consuelo, aproximando-se do pequeno e alisando sua
insipiente juba, 'Esse tipo de fala sempre soa torto na boca de
alguém novo. E você é tão pequeno, deve nem ter chegado aos
quinze ainda'.
'Sim,
dona Consuelo. Tenho treze anos', o leãozinho confessou, tímido, 'É
a minha primeira vez sozinho nas ruas, longe do centro'.
'Nossa,
a primeira vez? Mas que curioso!', e Consuelo fez uma pausa, erguendo
a mão bem alto e virando-se para os outros bichos, 'Digam-me,
pequenos, de quem aqui é a primeira vez hoje nas ruas noturnas de
Animalia?'.
E muitos
dos pequninos levantaram as mãos. Consuelo abriu um sorriso, 'Mas
que noite afortunada, mas que noite bela! Não é mesmo, meus
canarinhos?'. E os canarinhos, ecoando, repetiram: 'Que noite bela!
Que noite bela!'.
'Pois
bem, está decidido: essa noite falarei especialmente para os
pequenos iniciantes! Afastem-se os jovens, adultos e antigos, que
hoje a Consuelo dirigirá palavras para os filhotes e jovites!'. A
velha lince fez fez uma pequena pausa, olhando para os olhos curiosos
dos pequenotes a observá-la. 'Então quer dizer que todos vocês
estão espichando as caudas pela primeira vez? Usando pela primeira
vez as saias curtas e calças apertadas, maquiagem, tinta e gel?
Imagino que estejam muito nervosos, não?'.
'Não
estamos não!', disseram alguns filhotes, negando com a cabeça
veementemente. Porém, os maiores – que já começavam a sentir o
peso da tradição e do pudor – ficaram meio que num silêncio
constrangido, enquanto trocavam olhares entre si. Consuelo deu
risada:
'Ah, mas
não se preocupem os assustados, nem também os mais nervosos e
inseguros. É verdade, eu sei, a primeira noite é sempre a mais
longa, e as horas passam como que rolassem, e as dores perdoem pela
semana adentro. Mas as imagens – ah, as imagens! - estas nos
acompanharão para sempre. Tanto em seu bons momentos, quanto em ses
maus. Mas não se deixem inibir. Tomem tudo como uma oportunidade.
Usem de hoje para aprender, usem dessa sua primeira noite para
orquestrarem em si os ritmos dos seus corações. Provem de tudo
quanto puderem, de tantas quanto houverem pétalas cada corpo, cada
biologia. Encontrem o gosto que lhes é natural; para além de todo
bem, para além de todo mal. Independente das raízes do centro, do
certo, do errado. Criem seus próprios nomes e pintem com suas
próprias cores. Pois aqui, nessa noite abençoada de névoa, chuva e
fumaça, ignorem as normas, não se importem com a mandragora'.
E os
canarinhos sempre repetentes disseram: 'Não se importem com a
mandragora! Não se importem com a mandragora!', enquanto beijavam os
lábios da velha Consuelo e a abraçavam forte e íntimos. À volta,
a tempestade rugia e ventos frios lambiam as peles e pelos e cabelos
de todos. Mas Consuelo continuava de pé, agora circulando em volta
dos pequenos e gesticulando dramaticamente:
'Agora,
apurem os ouvidos e afiem a atenção para o que Dona Sora Consuelo
vai falar: Animalia tem várias regras ocultas que vigoram pela
noite e que mudam aos sabores das estações e ao capricho das
emoções. E para vocês, recém-chegados nesta dança noturna,
existem alguns conselhos bons que devem ser lembrados', e Consuelo
ergueu o dedo indicador, exigindo atenção. Seus canarinhos
repetiram, 'Que devem ser lembrados! Que devem ser lembrados!'.
Consuelo
ergueu o indicador, 'O centro é da mandragora e da realeza – dos
leões, das águias, dos cervos e seus semelhantes –, mas as ruas
pertencem ao vento. Quanto mais fundo nelas descerem, mais aberto
devem deixar seus corações para novos sorrisos. Para os muito
novos, cuidado com as ruas pouco iluminadas; nela há predadores que
ansiarão por rasgar-lhes a carne! Tenham cuidado especial com os
ursos. Quando virem algum, tomem nota da longitura de seus pelos. Se
o pelo descer longo e sinuoso, abrace o urso como almofada. Mas
tenham medo e fujam dos ursos de pelo curto, de suas chamas vermelhas
que escondem as folhas da Mandragora. E, o que quer que vocês façam,
não vão para onde os ursos comem!
'E caso
se virem perdidos nas ruas, procurem a música dos pássaros, pois
ela acaricia a pele e norteia o sangue. E falando de música, prestem
atenção ao canto das raposas pois, apesar de ninguém saber o que
dizem, sua voz traz respostas para o mistério que pode mudar um
rosto triste em alegre.
'E se
mesmo assim sentirem o peso do mundo nas costas, procurem pelas
pegadas dos lobos. Apesar de não serem realeza e sobre suas cabeças
não haver coroas, eles tem como jóia a Lua. Sempre confiem em seu
uivo, mas, caso criem rixa com algum deles, cuidado com os
calcanhares expostos às suas mordidas. E nunca digam aonde vão, a
menos que queiram um lobo sempre seguindo o rastro do seu cheiro.
'Mas se
seus corações desejarem algo mais, ou se as ruas já não lhes
forem o bastante, vão para além delas, atravessem os becos. Façam
amizades com as aranhas em suas teias de cristal. Dancem as danças
de cem passos das centopeias. Percam-se nas luzes dos formigueiros,
onde ao entrar em contato com tantos corpos vocês já não saberão
mais quando o seu termina e o outro começa'.
Fazendo
uma pausa para observar a bicharada, Consuelo viu que os olhinhos de
todos brilhavam. Alguns pareciam pronto para saírem correndo pelas
ruas e provar a noite em toda sua extensão. Outros, assustados,
mostravam um receio imenso – mas, igualmente, uma curiosidade
tremenda escorria de seus olhos.
'E não
tenham medo de dançar seus corpos pelos cantos. Toda forma é bem
vinda, todo tipo atrai algum outro. Toda beleza não é absoluta, mas
sim circunstancial. Arrumem seus corpos como se pintassem as nuvens.
Expressem na pele o arco-íris de sua alma!', e os canarinhos
repetiram, 'O arco-íris de sua alma! De sua alma!'.
E a
velha lince, já um tanto cansada de tanto falar, finalizou. 'E chega
de lições por hora, agora é hora de vocês saírem pela noite e
procurarem os fios dos seus próprios caminhos. Vão, pequnos,
rápido, pois a noite é curta e logo finda. Vão antes dos primeiros
raios do dia, vão depressa e vão ligeiras!'.
Tão
logo terminou de falar, movidas por tudo que a antiga falou, os
pequenos se juntaram em grupos e foram perder-se nas sombras da
noite. Conforme a bicharada dispersava, Dona Sora Consuelo procurou
um banco para sentar-se, seus dois canarinhos sentando em seu colo.
'Hoje é
uma noite afortunada, realmente'. E os canarinhos, sorridentes,
disseram entre beijos, 'Realmente! Realmente!'.
Image 1
(obs: sei que a foto é de uma raposa, mas não consegui encontrar uma de uma lince com aspecto de bruxa, =x)

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